quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Clássicos da liberdade.


Certa vez, Samuel, um garçom amigo do meu pai, soltou uma frase que achei bastante representativa sobre a nossa constante necessidade de ser livre. Na verdade, ele nos contou uma linda e curta história, enquanto nos servia uma deliciosa fava. Discorreu Samuca um breve causo, que eu poderia batizar de uma “Ode à liberdade”. Dizia nosso amigo: “Ciro, perceba que o cara pode cuidar,  dar carinho, alimentar com o melhor jiló que existir na terra, mas, assim que perceber uma brecha, o passarinho voa da gaiola”. A réstia do sol é uma indicação irresistível de que o caminho está livre.

Mas não somente o sol nos atrai e nos liberta. Páginas de um grande livro nos transportam por diversos mundos e, assim que terminamos ou pausamos a leitura, damos um lento gole na água e uma respiração orgulhosa, como se estivéssemos organizando todas as ideias, as ruas, os cheiros; como se estivéssemos amenizando brigas, articulando uma reconciliação entre casais pelo mundo afora, guiados pelos livros. Os iluministas já carimbavam ao mundo que o esclarecimento é a base para a perfeição do exercício das capacidades humanas: o pensamento racional, a criatividade, a educação refinada, o trajeto burguês de bons comportamentos.

Me despertou grande fascínio a estratégia adotada por um presídio em Santa Catarina, na cidade Joaçaba. O esquema é o seguinte: foi indicada para cada preso a leitura de um clássico da literatura, em troca de uma redução do tempo da pena. A primeira sugestão veio da Rússia. Atividade elaborada pelo projeto Reeducação de Imaginários, os penitenciários dispostos a reduzir alguns dias no tempo de reclusão terão que ler, em 30 dias, Crime e Castigo, do escritor russo Fiódor Dostoiévski. Autor consagrado da literatura do século XIX, Dostoiévski, além de Crime e Castigo, levou às páginas sua experiência atrás das grades, na obra Recordação das casas dos mortos. Há um identidade entre leitor e autor nessa ocasião.

Não basta apenas ler o livro, folhear de forma avulsa. O preso terá um prazo para degustar a obra completa. Após 30 dias de leituras e viagens, o detento colocará uma resenha sobre o livro sob avaliação de uma Comissão e do Juiz da vara responsável pelo presídio. A ideia, muito boa por sinal, é recente. Funciona há um mês.

Para quem achou que pouca atração e utilidade haveria este projeto, já estão inscritos no projeto 23 presos, que tentarão encurtar o caminho da liberdade através de um atalho chamado leitura, sobretudo da leitura dos clássicos literários. O cheiro da história passará entre as celas e atiçará mentes renovadas, ambiciosas pelas ruas, pelo mundo e pelo contato para tentar aplicar o que absorveu da experiência de Dostoiévski.

Também estão no planejamento William Shakespeare e Camilo Castelo Branco. A proposta está validada constitucionalmente. A Lei de Execuções Penais autoriza o detento reduzir a sua pena com trabalho e estudo. Os livros utilizados no projeto foram financiados com uma verba oriunda das multas pagas por pessoas que cometeram delitos que poderiam ser submetidos a fiança.

Aos poucos, munidos de verbos e ideias, presos rompem as celas, desatam nós da falta de oportunidade, da exclusão, do crime e se introduzem num mundo mais vivo, colorido, plural e repleto de oportunidades. Uma vida com mais poesia, questionamentos e formas alternativas  e viáveis de contestar a realidade. É pelas letras que esses cidadãos irão encontrar o caminho de volta para a liberdade.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Aurora de amores – perdidos e achados.


Li uma péssima notícia hoje no meu trabalho. Acostumado a apurar notícias de vários jornais e sites na internet, geralmente escolho temas para me debruçar um pouco mais. Uma anotação sorrateira, uma pesquisa no google, uma puxada de assunto com meus parceiros de trabalho. Mas hoje fiquei inconsolado. Fui pego, talvez, desprevenido.

É que assaltaram o amor recifense. Uns dias atrás alguns casais, movidos por uma paixão ardente, fizeram uma singela homenagem ao amor. Trancafiaram, em cadeados, o sentimento de cada um. Segundo estava no jornal de hoje, “um monumento ao amor”.
Achei isso uma coisa sensacional. Em tempos de materialismo puro, da renúncia da convivência, dos relacionamentos soltos, inconsistentes e viris, alguém escolheu outra pessoa para se prender, por amor, em um cadeado. Expor os nomes, os carinhos, deixar ali marcado que se amam. Mas, infelizmente, alguém roubou 200 desses cadeados representativos. 

Fiquei cá imaginando o que fizeram moças e rapazes depois desse ato tão enobrecido. Foram tomar um sorvete e  passear de mãos dadas? Resolveram sentar ali mesmo, na beira do Capibaribe, na belíssima rua da Aurora, e ficar de carinhos, comendo pipoca, sonhando com a vida e imaginando que dali, daqueles cadeados, o amor nunca sairia? Ou pensaram num cinema, pegar uma sessão sem graça e, no escurinho, se beijar e alisar as mãos? Será que pensaram num motel e, no furor das homenagens, transaram incansavelmente até o sonoro e mínimo eu te amo aos ouvidos, com os pelos atiçados?

Será que foram pagar as contas da nova casa, olhar novos móveis e projetar o novo lar? Se sim, hoje todos esses sonhos, guardados com todo zelo nos cadeados, foram furtados, levados na pura ignorância, na brutalidade de uma marretada esfacelando corações imaginários.

Sobre o caso, eu abri duas linhas de investigação: a primeira considera assalto puramente em busca de lucro,  em virtude de um possível valor que o material do cadeado possui. A segunda, a que mais pesa nas deduções e nas pistas deixadas, é carência. Alguém, que desejou estar exatamente na hora da homenagem e não esteve porque faltava o amor, resolveu se vingar, arrancar com ódio aquelas marcas de felicidade que não possui. Levou pra casa todos os cadeados, entulhou todos no quintal, chorou desesperadamente e, o que tudo indica, voltará lamentado o ato brutal que cometeu.

Aparecerá nos jornais, dará entrevista ao rádio e será convocado para um programa da Tv. Aos prantos, colocará a solidão como comparsa nessa história e, após o anuncio de prisão, durante o último depoimento ao delegado,  tentará reduzir a pena afirmando que ela foi a mentora intelectual do crime. Que seduziu sua racionalidade, que introduziu em sua mente essa ideia maluca de sequestrar o amor dos outros. Uma pena. Pobre rapaz. Deixou o Recife menos amável. O que compensa são os corações grudados na memória dos homens e das mulheres que lutaram pelo fim da Ditadura. Corações lindos que são obras do projeto Tortura nunca mais,expostos na linda rua da Aurora..

Ó, rua da Aurora, por que és tão linda? Por que só tu, rua do Rio, que recebes essas homenagens, esses amores, esses ímpetos da solidão, esses sentimentos? Perdoa os desamados, acolhe como teus filhos e cuida com cadeados amáveis e corações protetores. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Os sonhos entre atos


Ainda criança, quando morava em São Lourenço da Mata, tinha uns atos estranhos de olhar sem rumo e acreditar no que eu não estava vendo. Era quase como um afago aos devaneios, um carinho aos desejos. Digo isso, porque sempre tive uma grande lista de sonhos e eternas vontades. Não me considero por isso um problemático na conclusão desses projetos, até porque vivo reatualizando, revendo, adiando e descartando conforme o sopro do tempo. Mas era um menino constantemente atento ao futuro. E me reconfortava das limitações do presente profetizando com aquela velha máxima da esperança: “um dia eu consigo”.

Até parece uma prática de ambiciosos, um costume daqueles banqueiros milionários arriscando toda sua grana em apostas e desejando dominar todos os espaços. Mas não é esse tipo de ambição venenosa, inclusive porque não tenho essas ganas todas. Me contento sempre com o simples, o mais prático e reconfortante que possa ser.

Falo isso porque todo mês de setembro me bate uma nostalgia de certas coisas. Mentira. Todo dia eu sou nostálgico, não é uma exclusividade do coitado do setembro. Gosto do que é velho, aprecio a sensação de conservar. Um dia desses fiz uma faxina no meu quarto e vi que, realmente, tenho essa tendência de guardar muita inutilidade, muito papel. Acontece que eu tenho notado que não contenho esse meu lado “conservador”, no sentido de guardar, preservar e ter o deleite, de um dia, lembrar com orgulho.

Em uma das minhas gavetas, por exemplo, eu guardo uma bolsinha simples, transparente e com a marca “Claro”, repleta de cartas e bilhetes. Foram textos de amigos, escritos num momento de atenção. Nessa bolsa, encontrei cartas de Marília, uma querida amiga que me escreveu em 2008 sobre sonhos, sobre a vida, o mundo, a arte de escrever e, no final, disse que encerrava ao som de Tom Jobim. Que doçura. No exato momento, me transportei para quatro anos atrás, me sentei ao lado dela que, como escreveu, estava ás margens do Capibaribe. Foi tanta emoção que até  o coração pediu abrigo por causa do vento frio que corria vindo do rio.

Achei também, em outro lugar, duas bandeiras do MEPR, movimento estudantil do qual que fazia parte. Tempos de luta, do fervilhar revolucionário e da prática combativa por um mundo melhor e mais justo. Lembrei dos amigos e amigas que me cercavam nessa época. E você percebe que a saudade, entre outras coisas, é um delineador de personalidade.

Ao mesmo tempo em que lembro,  também projeto no futuro esse espirito conservador. O que guardo é feito na esperança de encontrar intacto aquele mesmo momento feliz no futuro, e os planejamentos também são cercados por essa ansiedade. Em minha lista atual repousam algumas vontades que já foram várias vezes adiadas: a primeira delas, e meus amigos Tarcísio e Terêncio irão me perdoar, é montar um bloco. Não sei de onde vem isso, mas sempre fui fascinado pela ideia de ter um bloco só meu, onde eu escolhesse o nome, juntasse todos os amigos, improvisasse uma linda camiseta, articulasse um instigante hino e saísse pelas ruas do Recife e Olinda, somando amigos empolgados na folia. Deve ser uma satisfação ímpar o orgulho de ser dono ou criador de um bloco. Imagino o povo dos Vassourinhas, do Galo, do Amantes de Glória, dos Barba,  de tantas outras troças que se espalham nas ladeiras e nas ruas, contagiando o povo com alegria, irreverência, amizade e paz.

Outro sonho é conhecer Cuba. Tenho um fascínio por aquele lugar. Uma ilha extremamente política para o mundo. Meus anseios na pequena Cuba é conhecer o seu lado B, a não sensação política, os outros sonhos, as suas ruas, o seu povo, conhecer o Frontal de lá, do Antigo de lá, etc; Ser um turista com vontade de conhecer a intimidade deles. Imagino o charme que é ouvir Buena Vista em Havana, tomando um Run cubano, com algumas baforadas dos charutos, lendo os extensos jornais divulgadores dos Castros, dá uma olhadinha de leve nas saias curtas das garotas e sentir o verão e sol daquela Ilha. Na verdade, respirar um pouco aquela leve sensação de ser diferente. 

Escrever um livro é o sonho mais pungente. É o tipo de desejo que se intromete em todos os outros planos. Não há um passo que não seja dado a partir do velho “vamos publicar um livro”. O blog tem me consolado durante um bom tempo, desde as minhas humildes e singelas contribuições ao excelente Jornal  Cultural, do Tarcísio Camelo. As redes sociais suavizam um pouco essa minha pressa de colocar os carros na frente dos verbos. Sou muito insistente nisso de escrever um livro, muito embora me falte assunto, prumo e manha.

Para o sonho, esse sim, parece que nasci para ele. Me sinto o mais preparado do mundo para pensa-lo. Se dependesse dele, já estava voltando pra casa depois de uma baita volta ao mundo. Mas,  como cantava Chico, sonhos sonhos são. Realizá-los já são outros sonhos. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A pátria aposentou as chuteiras.


Nunca, mas eu digo com toda convicção que nunca, o Brasileiro deixará de amar o futebol. É sua paixão ardente, que ferve, derrete a epiderme e desata todos os fios de racionalidade que compõem o juízo. O futebol é o amante do brasileiro.

Não foi à toa que o mestre das palavras, Nelson Rodrigues, em uma de suas crônicas esportivas, atestava: a canarinho em campo é a pátria de chuteiras, dada a dimensão do espetáculo que era um jogo brasileiro em copa do mundo, amistoso ou demais competições internacionais envolvendo seleções.

Mas depois de ontem, comovido, o Brasileiro aposentou suas chuteiras. Morgou. Não há graça em vestir a camisa amarela, reunir os amigos em torno da Tv e tomar algumas “geladas” durante a partida, ou ir ao estádio, enrolado nas bandeiras, embriagado de euforia e cantar, nas arquibancadas, a todo peito: “Eu sou brasileiro”. Não. Não há mais isso.

É um desapego que corre o país. Em São Paulo, a desilusão ficou evidente nas vaias, nas ensurdecedoras agressões verbais.  Em Recife, mesmo com o largo resultado de 8x0, não entusiasmou. O adversário não deixou que a goleada se transformasse num resultado exultante e fez com que piadas e indiferenças corressem as ruas do Recife. Foi-se embora a tradição pernambucana de alavancar a seleção brasileira, em absoluto.

Já faz um tempo que o tradicional apaixonado por futebol mandou para escanteio o time de sua nação. É muita concorrência para as firulas ineficientes do Neymar, a insuficiente tendência à camisa 10 de Lucas, a ausência de um zagueiro destemido em rifar e travar bolas ali atrás e de um lateral operário, indo e vindo, do ataque à defesa. 

Concorre com eles a incansável publicidade, que exige deles mais exibição do que competência em campo, que leiloa suas habilidades, controlando seus passos e censurando as cores de um espetáculo que, por natureza, nunca foi adepto do controle das emoções.

Dessa forma, lamenta o torcedor o escrete definhar, amargurar a ausência do talento e da emoção, da vibração e da tensão inebriante que é uma partida de futebol. Lamenta o torcedor e, mesmo desacreditado, vai dormir antes de o jogo começar, mas aciona seu radinho de pilha embaixo do travesseiro e confere de longe, como um pai magoado observa um filho rebelde.

E como quem lava as mãos pela desobediência constante, na solidão da tristeza e na dor ácida da separação, estende, pelos cadarços, as suas chuteiras. Aposenta-se das arquibancadas dos sonhos. 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quando a saudade aperta.



Foi durante minha pedalada matinal que a notícia me chegou. Um jovem senhor durante sua crônica diária, enquanto varria a garagem de casa, proseava com o vizinho. Eu, como de costume, não pude passar desocupado durante minha pausa para reabastecer as energias e liguei os meus ouvidos:

"Marrapaz, hoje fez quatro anos da morte daquele cabra que cantava Eu não sou cachorro, não...É...Waldick Soriano", alertou o cronista. 

"É, rapaz. Ele faz falta mesmo". respondeu vizinho. 

"E como!", rebateu o puxador de conversa. 

No fundo, todo brasileiro adora chorar um amor perdido. Parece que se coça a semana inteira para que, na sexta-feira, tenha a possibilidade de  chamar um amigo e tomar uma cachaça lamentando a mulher ou o homem que partiu. O assunto começa como uma tese psicanalítica, com citações ao mestre Freud, e termina com um sonoro "aquela cachorra", uma virada de um gole só da cachaça e o pedido caloroso por Waldick Soriano.

As canções desse baiano surgem como hino à noite caberística. Toca nas melhores casas noturnas, embalando corações apaixonados. Dono de um charme peculiar, Waldick saiu de Catité, sertão da Bahia, buscando a fama e o sucesso na música ou no cinema. Inspirado em Durango Kid, acatou o chapéu estilo cowmboy, famoso nos filmes de faroeste, em seguida o velho paletó da malandragem e o arrebatador óculos escuros. 

Como o maior cantor romântico brasileiro, intérprete de canções viscerais, inevitavelmente Waldick amou muitas mulheres, inclusive algumas delas ao mesmo tempo. Dividia-se entre elas por não saber dizer um não, abandonar uma paixão, correr o sério risco da irremediável solidão. 

Nas letras, a dura crueldade do amor, da saudade e da traição, elementos indispensáveis na vida de todo brasileiro. Waldick é o tipo de música que um velho de 60 anos ou um menino de 15 ajoelham-se, pertinho da parede, escorando o quengo, e cantam aos berros, com a mão no coração. É música que se lamenta, expele a dor, que faz o ser humano abraçar o amigo e erguer  as mãos adorando o amor. 

Antes de morrer, em 2008, o músico vinha lutando contra um câncer, descoberto em 2006. Mesmo em recuperação, Waldick cantou e emocionou plateias, em especial um show emblemático em Fortaleza, chamado Waldick Soriano - Sempre no meu coração, dirigido pela atriz Patrícia Pilar e em seguida transformado num belo Dvd. Esta belíssima obra, inclusive, quando nosso infalível bar de Margarida funcionava, ao redor da UFPE, não demorava muito a tocar e a estudantada toda se entregava ao brega romântico. 

Como toda manhã pra mim é surpreendente, me veio essa notícia comovente. Senti falta de algum disco do Waldick, para continuar a pedalada curtindo um som para homenageá-lo também, assim como fez os dois senhores. Mas não tem problema. Hoje é terça-feira e com certeza haverá alguém na Mamede Simões, no Bar Central, no Cais de Santa Rita, em Olinda,no ônibus, na bicicleta, no táxi, no Rádio,  nos Ele e Ela da vida colocando Waldick Soriano pra cantar Quem és tu, A dama de vermelho, Torturas de amor, Eu não sou cachorro, não, entre tantas outras,  e chorar abertamente a dor de quando a saudade aperta. 

sábado, 1 de setembro de 2012

Uma história de afeto e aventura com os livros.

Corre em segredo de Estado a inauguração de uma biblioteca comunitária na Vila Santa Luzia, aqui na Torre. À frente da iniciativa estão os meus amigos Edu Castro, poeta dos maiores, e Matheus Pinheiro, o menino que desenha o mundo. Sábado passado levei minha primeira contribuição. Juntei numa sacola Histórias do Recife mal assombrado, adaptações infanto-juvenis de Machado de Assis (Dom Casmurro) e Raul Pompéia (O Ateneu) feitas por Ivan Jaf, as Flores para Cecília do pernambucano Paulo Caldas,  com uma edição rara de Ásperos Tempos, primeiro volume da trilogia Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado.Esta obra foi uma encomenda do Partido Comunista Brasileiro e é uma espécie de lado B do escritor baiano. Mostra a rotina de um militante comunista brasileiro sob os auspícios do Estado Novo varguista. Uma narrativa envolvente, que mescla tons de aventura com densidade ideológica no Brasil dos anos 1930.

Entre uma cerveja e outra, imaginava - em silêncio - quantos mundos seriam abertos a partir daquelas leituras. Edu, enquanto ordenava os novos livros, comentava de suas andanças pela Prefeitura do Recife, a articulação com a Associação Comunitária da Vila e eu, observando o olho cheio de brilho daquele poeta, também me encantava. Fiquei produzindo sonhos naquele momento, vendo as crianças da Torre em rodinha, com livros na mão, sorrindo, desenhando, pensando, mirabolando, traçando travessuras. 

O orgulho não se contém nessas horas. Amante de livros e um consumidor desmedido de livrarias, tenho muitas ideias para bibliotecas. Penso nas estantes, na decoração, nas atividades, nas rodas de leitura, oficinas de palavras, brincadeiras... Penso em um espaço constantemente vivo. 

A ideia da biblioteca me comove bastante porque faz pouco tempo que eu me despertei para a literatura. Quando mais novo, não gostava dos livros. Preferia a rua, jogar bola, estar com os amigos, solto. Acreditava ser uma chatice, aquele mundo de leituras. Meus pais viviam incomodados com meus erros de português e sutil incapacidade de interpretação. Vivia em outros mundos, desapercebido das ideias. 

Foi aí que me presentearam o livro "O Menino sem imaginação", de Carlos Eduardo Novaes. Confesso que não li, mas fiquei incomodado com o sugestivo título diante da minha situação. Senti que havia um complô contra as minhas inércias. Meus pais, de uma forma discreta, disseram: você é um garoto que não pensa. Precisa ler! Foi um puta choque. 

Lembro que ainda debulhei algumas páginas, mas não deu. Não li o livro. Não havia prazer. Era mais uma pressão do que uma sugestão. Me deixavam ainda mais preocupado as comparações com meus amigos. 

"A filha de fulano já está no terceiro livro do Harry Potter". 

Sorrateiramente, naquele tom de conversa de juízo, eu soltava um leve  "E daí?". Preferia debater a escalação do Santa Cruz, me dedicar a melhorar minhas habilidades no futebol para não passar vexame nas peladas, ou então pedalar nas intermináveis ladeiras do Parque Capibaribe. Ficava dando um pinta de indiferente àquelas críticas, mas hoje relembro que, no fundo, havia um certo desfalque, um lado do meu cocuruto alertava da necessidade da leitura, ainda mais pelas recorrentes notas vermelhas no boletim. 

Depois de uma longa conversa com meu pai, resolvi começar a ler. Seguindo uma dica dele, coloquei uma folha de papel ofício do lado para identificar e anotar palavras que eu não sabia o significado para achar depois no dicionário. O livro foi a biografia de Pedro Simon. Em menos de 05 páginas e quase uma hora de leitura, já tinha preenchido uma  folha quase toda de palavras indecifráveis para mim. Passei a achar o Pedro Simon, senador da república oriundo dos pampas,uma figura enigmática. Não foi dessa vez. 

Mas sempre tem um livro que desata o nó e nos embala nas ladeiras da leitura. O meu foi a auto-biografia de Samuel Wainer ( Minha Razão de Viver - o título do livro); depois veio Machado de Assis, Jorge Amado, Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, José Saramago, Chico Buarque, Euclides da Cunha e meu fascínio por Canudos. Depois, já no meio da ladeira, entrei na faculdade e fui diagnosticado com uma compulsão por livros. Mas não consegui conter a entrada de Nietszche, Walter Benjamin, Robert Darton, Eric Hobsbawm, Eduardo Galeano, George Duby e tantas outras figuras. 

Confesso que perdi o freio. Leio vários livros ao mesmo tempo e em vários lugares: tem o livro da mesinha do "escritório", o livro do banheiro, o livro que folheio antes do sono, o da mesa da sala, o do ônibus. Nunca paro de ler. E assim, junto a outros amigos queridos, como Edu e Matheus, espero contaminar novos leitores, futuros escritores da nação. Jogar a sementinha do verbo e colher uma grande vida que brotará em segundos. 

Vou indo devagar por aqui, com o meu Guerra e Paz embaixo do braço. Estava relendo o Os Sertões, mas depois de uma conversa com uma grande amiga ontem, deu vontade de dar uma passada nas ruas da Rússia e conversar um pouco com Tolstói, rir dos seus salões, compreender a imensidão do seu tempo, sentir a importância de Bonaparte no contexto diplomático das primeiras décadas do século XIX. Sentir o quanto a Guerra e a Paz sacodem a humanidade. 

Nada melhor do que os livros para promover uma viagem de Canudos, no sertão da Bahia, em 1894, para a Rússia, em São Petersburgo, em 1805.

SERVIÇO:
Quem tiver livros para doar, não se acanhe: pode escrever um comentário aqui ou no facebook, que a gente articula a doação. 




terça-feira, 28 de agosto de 2012

Para expressar a liberdade


Você se  incomoda porque o seu cabelo enrolado é feio quando passa na Tv, porque sua música preferida não toca no rádio, porque sua religião é distorcida e generalizada em novelas, séries e reportagens, porque sua ligação telefônica cai a todo instante e você paga caro para usar o sinal dessa operadora, porque não há conexão à internet pública para facilitar o andamento de estudos, reuniões e, inclusive, passeios turísticos na sua cidade, porque homens ou mulheres que optam por se relacionar sexualmente com pessoas do mesmo sexo são ironizados com "naturalidade", porque todo investimento não sustentável é negligenciado, porque assassinatos políticos e censuras cotidianas não são revelados pelos meios de imprensa, porque você, jornalista, não pode escrever ou falar porque é contra a linha de financiamento do Jornal, Rádio ou Tv em que você trabalha, porque grupos de arte não podem produzir audiovisual, porque as prefeituras fazem de suas secretarias de imprensa mera assessoria publicitária, porque a greve da sua categoria é criminalizada e qualquer protesto é vandalismo, porque o livro ideal para sua monografia não está à venda nas livrarias e, ainda assim, custa uma fortuna??? 

Chegou a hora de postar na sua rede social a tag #paraexpressaraliberdade e agregar força à luta pela Liberdade de expressão e pela pluralidade de informação,  seja ela onde for. Assim, me encaminho nessa campanha pela total liberdade de expressão. E você? 


domingo, 26 de agosto de 2012

As profissões que recriam a utilidade.

Foi há um mês, quando precisei fazer uma nova cópia da chave da porta da minha casa, que eu redescobri esse mundo de profissões ignoradas, como sintetiza Paulo Barreto(ou melhor seria chamá-lo de João do Rio, autor de A alma encantadora das ruas). Em uma dessas cervejadas além da conta, as minhas chaves resolveram voltar sozinhas para casa. Não aguentavam mais de sono, uma conversa sem rumo e pegaram o caminho de volta. Mas se perderam, fugiram do meu alcance e eu precisei fazer uma cópia das que estavam em casa, sob observações dos meus pais e de Roseli. 

Cheguei no rapaz conhecido como chaveiro e pedi pra ele fazer duas cópias. Imaginei que custaria uma fortuna, afinal desvendar os segredos de uma fechadura é de fato uma missão enigmática. Chaveiro recorria a um olhar clínico, sentia bem as curvas do segredo, imaginava a dificuldade posta propositadamente e ia descobrindo aos poucos os caminhos. Ligou sua máquina, que foi imprimindo em outro metal as mesmas silhuetas da chave oficial. Em menos de dois minutos, incluindo a parte estética do lixar as curvas, retirar o pó e concluir com um leve sopro de finalização, já tinha de volta a garantia de entrar em casa. 

Fiquei surpreso com essa minúcia, essa pequena elegância do chaveiro. Um salvador de almas perdidas e trancadas. HD dos esquecidos, distraídos pelos pássaros ou simplesmente pela nuvem mais gorda daquele  dia, deixando as chaves em lugares destinados aos perdidos. 

Espero que minha amiga Laura da Hora não exija muito do meu texto em relação a macro e a microeconomia. Minhas referências econômicas são outras, talvez mais literárias. Acontece que já faz um tempo que venho refletindo sobre essas profissões singelas, mas ignoradas. Em cada esquina mais comercial tem uma banca de chaveiro, um borracheiro, um colecionador, um vendedor de selos. amolador de alicate de unha, mecânico de panela de pressão, um tirador de foto 3x4. Fico surpreso e contente ao mesmo tempo com essa variedade de profissões que costumam transformar o inútil em útil com uma facilidade sem medida. Apenas um argumento, um convite, uma demonstração habilidosa e tá conquistado o cliente. 

Sei que toda essa condição singela vai além do que imaginamos. Há embutida nas almas desses homens e dessas mulheres uma tendência ao que é simples, uma tendência à recomposição e à simplicidade. Há dias venho admirando esse comércio informal, essa talvez microeconomia, mas que deveria estar nas macroeconomias, determinando PIBS, elevando gráficos do país, recebendo mais incentivos fiscais, participar de negociações internacionais no Ministério da Fazenda. Deveriam ser considerados homens de negócios. Afinal, concordamos em um assunto: viver à sombra dessas fábricas grandiosas, não é fácil. 

Por isso, para esse texto instintivamente emocional, vou solicitar um fragmento de João do Rio, meu escritor preferido do momento. Ele resume toda essa história da melhor forma possível: 

Esses vendedores ignorados, segundo João do Rio, "[...] são os heróis da utilidade, os que apanham o inútil para viver, os inconscientes aplicadores á vida das cidades daquele axioma de Lavoisier; nada se perde na natureza.A polícia não os prende e, na boêmia das ruas, os desgraçados são ainda explorados pelos adelos, pelos ferro-velhos, pelos proprietários das fábricas."


Na verdade, ouso concluir: são eles as resistências, as esperanças de solução para um mundo cada vez mais insuportavelmente descartável. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Tirando a poeira da história.

O Brasil inteiro promove agora em agosto um cinematográfico sopro em sua memória. Consagrado país da amnésia, em virtude de seus atropelos éticos e políticos, investe, sem pudor, na lembrança de seus mestres literários. Uma dupla injeção de ânimo. Lembrar e cultivar, muito embora as duas coisas possam servir ao mesmo propósito, uma palavra substituir a outra em momentos de ocupação vocabulária.

Mas o Brasil vem surpreendendo com suas mais recentes preocupações, fazendo com que Bienais - mesmo que o objetivo seja o lucro - comemorações de centenários e lançamentos dividam espaço nos jornais e na tv com homicídios, roubos e desvio de conduta de políticos irresponsáveis. Sei muito bem que não é uma boa companhia, mas ameniza o susto, melhora o jantar e o sono chega mais leve, ou o dia começa mais agradável. 

Muitos festivais de literatura, palestras, peças e filmes exibem-se para homenagear um escritor, um homem ou uma mulher que soube acalentar almas com um verbo, indicar caminhos em momentos inoportunos, sacudir inércias e cultivar ideias para um mundo melhor. Nada mais justo do que homenagens, aos vivos e aos mortos. 

Como nos alertou Pilar Del Río, esposa do já saudoso José Saramago, sobre as lembranças de Jorge Amado: "não se comemora o centenário de um escritor, celebram-se os cem anos de vida de um ser humano que a qualquer momento pode aparecer na esquina"

Cem anos passam rapidinho dentre de um ano comemorativo e, além da nostalgia, a sensação de que algo escapuliu, uma limitação da memória em contemplar a grandiosidade de alguém que fez o simples, teima em persistir. Em 2012, duas figuras são celebridades por, se estivessem vivas, comemorar cem anos. Um centenário. Tanto o baiano Jorge Amado, autor de palavras de peito aberto, quanto Nelson Rodrigues, o recifense cedido muito cedo ao Rio de Janeiro, que deixava o mundo arisco com suas verdades inconfessáveis, matam as saudades de seus antigos admiradores. 

Reaparecem para a jovem que despertou para literatura com o livro Capitães de Areia,amargamente sugerido pelo professor de português da oitava série e depois lido com uma paixão incontrolável. Reaparecem para os discretos porteiros de prédios da classe média recifense, que folheiam edições de Nelson Rodrigues vendidas num sebo mais perto, exatamente contextualizado, favorecendo vertigens e identidades. Reaparecem nas adaptações da TV, movimentando enredos extraídos da realidade, de um pedaço de verdade que acontece no dia-a-dia, no calor das ruas, no furor do tesão, na afiada raiva que explode no conviver humano.

Reaparecem orgulhosos nas novas estantes de Bibliotecas Comunitárias, metamorfoseando mundos, iluminando pequenas ideias e contribuindo nos primeiros passos. Reaparecem incentivando novas visões sobre a história, cutucando historiadores, refazendo juízos de advogados, repensando corações de amantes. Reaparecem nas emergências dos hospitais, retomando o fôlego da esperança  em um médico enfadado, um sopro de vida a um paciente com câncer. Reaparecem nas repartições públicas, ocupando os intervalos, lidos ao aroma do café.

Reaparecem citados entre brindes e sorrisos, entra abraços e choros, lembranças e expectativas numa mesa de Bar. Num comentário soberbo, lesado de precisão, mas coberto por boas intenções, observações pertinentes para a resolução das tristezas da vida. Reaparecem num rompante: "Assim disse Jorge Amado", "Oxe, Nelson Rodrigues disse uma vez..." Reaparecem com palavras convertidas em imagens pela inspiração do fotógrafo. 

Eles reaparecem, cheios de pompas, glórias, sorrindo. Reaparecem em novas capas, em papéis reciclados. Reaparecem nas prateleiras, no descortinar das poeiras,  retomam os tablados convertendo a - ainda - pequena plateia do teatro. Ressurgem, com um sorriso na ponta da boca, com as mãos no bolso, para nos fazer olhar diferente para a Salvador de hoje e para as ruas do Rio de ontem. 

Sacrificam-se esses homens, a preço de sua reclusão reflexiva, para reaparecer neste mundo, encoberto de incertezas, e nos ensinar a reescrever nossa história. Um brinde aos 100 desses "pequenos" importantíssimos nomes de nossa literatura: Nelson e Jorge! 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Aquela mesa.

Sou do tipo sonhador. Não deixo o futuro me escapar. Escalo situações, planejo os sorrisos, prevejo os amigos e desenho o amanhã. Sou do tipo que não desperdiço o presente: consolido os antigos futuros. 

Não adianta" ficar" sem pensar em namorar, começar pensando no fim, casar imaginando a comunhão de bens, torcer sem acreditar, mentir de verdade, tomar banho de roupa. Tudo tem que ser feito como se estivesse lançando a sorte grande, sentindo a sensação de preencher o vazio, de não largar a esperança sozinha numa estrada de ciladas.

Tudo se resume no se doar, na entrega, na vertigem. Foi assim, dentro de um sonho, que descobri o grande significado da mesa. Isso, a mesa.  Um dia desses achei que poderia ser meu próprio arquiteto e, durante uma incontrolável vontade de pensar a casa própria do futuro, me danei a desenhar a maquete da minha residência: pisos, móveis, estantes, cozinha, lugar das plantas, o espaço do cachorro, discos, tvs, quarto dos meninos e a mesa da sala. Tudo muito bem dimensionado. E, de repente, notei que durante todo o planejamento, me preocupei exaustivamente com a  mesa, a danada que ficaria na sala, com cinzeiro, cadeiras rebaixadas 1cm, próxima às estantes dos livros e dos discos. .

Quem já casou deve saber que, na hora de montar a mobília, pouco se pensa na mesa. Compra-se tudo, menos a mesa. Ah! Um detalhe: o casamento que falo é de classe média baixa razoável. Compra-se de tudo, menos a mesa. Descola qualquer uma com um cunhado, pega emprestado uma de plástico com a marca de cerveja  num Bar mais íntimo - geralmente, onde se faz um fiado - , ou então a sogra disponibiliza a primeira mesa do casamento dela, que tava encostada no quintal, guardando as panelas velhas ou servindo de poleiro para as galinhas durante o passeio. Mas, no final das contas, nenhuma atenção, um mínimo cuidado.

Acontece que, curiosamente, depois de tanto distanciamento, depois desse desapego cruel, cria-se uma afinidade, um tênue cuidado. Aos poucos,desenvolve-se uma mania. As falhas do chão da casa já se amoldam às pernas da mesa, ora com uma gentil contribuição de uma tampa de Fanta KS ou o próprio vazio do buraco acolhe carinhosamente a estrutura da mesa. Rola um sintonia entre esquecidos e humilhados: a mesa compartilha suas agruras de um rebento desprezado, enquanto o chão argumenta que o pior é ser pisado mesmo sendo decorado com uma cerâmica, um carpete. Tanto cuidado para um pé desatencioso.

Depois de um tempo percebi que a mesa merecia o cuidado que recebeu. O mundo dos domicílios comete uma injustiça com este móvel diante da pompa das novatas LCDs/Plasma, dos Iphones, das geladeiras e dos Splinters. Nenhum desses segura a ponta do dono da casa como a senhora mesa.

Na hora de fazer as contas, no meio da madrugada, contendo as dores de cabeça vindas da preocupação, lá está a mesa exposta ao sacrifício de não dormir para que você acerte os cálculos das dívidas. Assim que você termina a contabilidade, o sol já nasce e as crianças acordam, enchiqueirando-se ao redor mesa, depositando o peso da indiferença em quem já serve o café da manhã.

É a mesa quem reúne, quem junta os diferentes, quem ameniza os entraves, as raivas. É a mesa, quando não o travesseiros, quem enxuga as lágrimas de um fim de casamento, de um luto como cantou Nelson Gonçalves.. É a mesa a primeira a concordar com uma festinha de comemoração pela aprovação no vestibular, pelo aumento de salário, pelo novo emprego ou simplesmente para matar a saudade.


É a mesa quem suporta as roupas sujas ou as limpas, que estão esperando para se engomar. É a mesa quem salva o estudante relapso ou o que sofre de déficit de atenção em época de prova; é quem segura as pontas da ansiedade na hora dos estudos, da monografia. É quem recepciona visitas, quem acomoda o avô na hora da espera. A mesa é quem sustenta um dos mais bonitos arranjos da sala, da casa, do ambiente. E ainda assim ela é esquecida, trocada, envelhecida pelo tempo, mofada pelo desprezo. 

Mesmo depois de usada, depois de amargurar os maiores ciúmes, ela se conforma com o quintal ou o quarto de depósitos, junto às tralhas e ao sufocante cheiro de inseticida. Conforma-se porque sabe que outra chega e assim a geração continua, o objeto permanece, silenciosamente, como o mais importante da casa. O charme da mesa é ser discreta.



terça-feira, 14 de agosto de 2012

As memórias que o futebol acende.

Ainda guardo o bilhete que era meu passaporte para o monumental Estádio do Arruda. Era 1997 e o jogo era válido pelo Campeonato Brasileiro da Série B. Uma partida intermediária, nada decisiva, apenas contagem de pontos e no horário noturno, natural do meio da semana. Ainda na segunda-feira, às vésperas do espetáculo da Quarta, meu pai e minha mãe me presentearam uma linda camisa do Santa Cruz. Precisava estar bem vestido para um Santa x Payssandu. 

Às 15h do dia do jogo não conseguia segurar a ansiedade. Olhava para a blusa, corria no quintal chutando a bola e narrando o que seria a partida da noite: "Lá vai Mancuso pela esquerda, trabalhou com Biliu no meio de campo, que já lançou para Camanducaia, sozinho na grande área, ele e o goleiro. Preparou-se para o chute: é gol, do Santa! ". 

Ia por ali, imaginando o meu clássico da noite, o meu futebol, a minha paixão. A caminho do Estádio, ouvia o rádio exibir as análises dos comentaristas. Os desfalques, as estratégias; repórteres transmitindo ao vivo informações sobre a movimentação do público na área externa. 

Ao se aproximar, já na esquina da Avenida Beberibe, lá estava aquela estrutura imensa esperando a minha estréia como torcedor do Santa Cruz. A qualquer novato ou visitante, o Arruda impressiona. Uma arquitetura colossal, um charme sem luxo, uma história em concreto. 

Ali foi minha primeira experiência com o futebol profissional, nas arquibancadas, nas vibrações. Mas me acostumei com as peladas no meio da rua, na prática da famosa barrinha: dois times com dois meninos e as traves da barra com pedras adaptadas. O maior embate, nesses clássicos de São Lourenço, era com as ladeiras do Parque Capibaribe, bairro que cresci. Elas deixavam a partida mais eletrizante.  Era um pelada raçuda, disputada nas últimas canelas e na eficiência da velocidade. 

Depois, eu e meus parceiros de futebol ganhamos uma quadra, na praça de eventos. Transferimos nossas habilidades para lá e trouxemos de volta a paciência da vizinhança. 

Desde esse tempo, percebi que o futebol tinha essa capacidade de unir gente, de valorizar o coletivo. Admirava ver uma jogada na raça ser reconhecida pelo companheiro, a vibração de um esforço, o aplauso de uma linda jogada, a expectativa de um gol de longa  distância e um abração de consolo depois de uma falha. Os gritos, as gírias - "Olha o ladrão, é nossa" - tudo sinaliza para um esporte em equipe, sem exibicionismo. 

Eu adorava e adoro quando um jogador-treinador, durante a montagem de uma jogada, alerta: "faz o fácil". Inconscientemente, o futebol ativa esse instinto simples, colaborativo e solidário que está adormecido. O futebol tem dessas coisas de fazer o olho brilhar, o estômago ficar lotado de emoções e o coração, acelerado, se apaixonar constantemente. 

É um verdadeiro baile de chuteiras, numa dança rústica e masculina. O futebol é o charme nacional. Não há quem segure a emoção de um Maracanã, Arruda lotados. A euforia não tem censura. Há quem se derrame pelas ruas lamentando a frustração, como eu lamentei em 1997, na minha estréia como torcedor, a derrota para o Payssandu. Mas também já varei madrugadas, fiz carreata, pintei o rosto e me enrolei na bandeira para comemorar títulos, vitórias, glórias e ascensões. 

Mesmo no tempo do consumo, na fulminante máquina capitalista, na fábrica de estrelas publicitárias, que cada vez mais minimizam o futebol e maximizam um espetáculo vazio, a minha esperança no futebol continua acesa, assim como minha memória afetiva, que me faz lembrar de Givanildo, Ramon, Luciano Veloso; me faz lembrar dos mais recentes, como Luizinho Vieira, Reinaldo, do grande goleiro Nilson, do arqueiro de 2005 Cleber. 

Me fazem lembrar e, ansiosamente, esperar por um futebol de brilho, de raça, de solidariedade, de empenho. De um futebol que, no fim de tudo, peça só uma coisa: "faz o fácil". 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O encontro com Galeano na padaria.

Hoje, eu tinha um bom texto para escrever. As ideias me ocuparam o dia todo. No ônibus, me coçava para chegar em casa logo e escrever esse texto. Mas o cansaço brochou o pensamento, atrapalhou o fluxo das letras e engarrafou a coragem. E para melhorar a situação de vocês, meus leitores, quem encontrei há pouco misturado ao povo na padaria foi Eduardo Galeano. Ele, esse mestre da arte, do pensamento e das letras,  fala melhor do que eu de todas as impressões que tive  da padaria, depois de comprar meu pãozinho tradicional. É lá que me confraternizo, que me queimo nesse fogo brilhantemente ardente do Galeano. É lá que dou um Caps Lock na minha humanidade, onde escuto boas histórias, onde vejo que não há conflito entre as diferenças.  Na saída, meio saudoso, Galeano  me ofereceu um texto, que sirvo para vocês, com manteiga e afeto. 

Prometo amanhã oferecer um texto a Galeano e, quem sabe, ele, carinhosamente,  compartilha com vocês no facebook. 

O mundo. 

"Um homem da aldeia Négua, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. 

- O mundo é isso - revelou - Um montão de gente, um mar de fogueirinhas

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos , fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo."

Assim, voltei pra casa, depois de uma conversa de pé de ouvido com Eduardo Galeano. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Nas vias da saúde.

Meu pai comprou uma bicicleta. Linda, consegue alcançar uma velocidade interessante, muito disso por conta da leveza de sua estrutura de alumínio. Mas caso desista do movimento, dois freios a disco sustentam o meu peso e contém a pressa. O único incômodo até agora é a sela, que tá deixando os países baixos um pouco estranhos depois do passeio, e o pedal, que tem uns cravos de segurança antiderrapante. Mas nada que um sapato não resolva o segundo problema. Já o primeiro...só o tempo. 

Pra quem não entende bulhufas de bicicleta, a bicha é uma máquina. Tou só esperando a recuperação financeira dessa para, junto ao meu pai, investir em outra, para que a gente possa juntos curtir o Recife por outro ângulo, aproveitar os ventos mais tranquilos de setembro. 

Da bicicleta o ponto de vista é outro. É mais tranquilo, mais ameno, menos rancoroso, menos intransigente. Nessa minha retomada ciclística, já percebi outro mundo, outros comportamentos. Percebi que os ciclistas são mais educados que os motoristas. Em cruzamentos ou pequenas ciladas no meio da rua, todos se prontificam a uma solução. Depois de resolvida a situação, um aceno, um balançar de cabeça bem gentil, que chega a parecer um combustível para as pedaladas. 

Acho lindo as crianças, que usam os seus sininhos para uma conversa em código no trânsito. Um trin-trin charmoso. Vão ali, na sua pequena introdução à sociedade. Compartilhando experiências com seus amigos, entendendo melhor sobre equilíbrio, argumentando mecanicamente sobre as rodinhas, o desafio da velocidade, os melhores roteiros. 

Vou pedalando e compreendendo a pressa dos mais velhos, com seus veículos mais robustos, com bagageiro, uma bolsinha com a farda e as ferramentes presas atrás e a esperança de encontrar em casa a esposa já de volta do trabalho e o  menino fazendo a tarefa de casa. 

Ainda não encontrei aquele pessoal do Corujaqueira. A galera é muito organizada, uma finesse só. Primeiro, que eles só andam em bando, o que deve ser bastante divertido; segundo, que são extremamente educados, preocupados com causas ambientais, com a saúde, são politicamente atraentes. Além, é claro, do ímpeto explorador do Recife, de cortar grandes distâncias na limitação das duas rodas. 


Isso me faz lembrar meu amigo Terêncio, que tem tudo a ver com esse povo do Corujaqueira. Terêncio é extremamente empenhado em seus desafios. Em 2009, ele topou ir comigo até o Recife Antigo. Na época, minha bicicleta não era uma grande máquina, mas aguentou nossa jornada, e ainda seguiu conosco até Olinda, em pleno fervilhar das prévias. A demora é só Terêncio voltar de Natal para a gente agendar uma pedalada até o Brenand, aqui na Várzea. 

A outra demora também é o meu condicionamento físico. O tempo gosta de zombar do homem. Mesmo em intervalos tão curtos, já deu pra perceber a diferença, o avançar da idade, as duas décadas pesando mais de 70 kg e a dificuldade da cerveja e das gorduras deliciosas saírem do corpo depois de 30min de exercício. Já tou me resolvendo para não ouvir de um coroa de 60 anos, embalado na sua pequena maratona, esnobando a minha fragilidade com  o clássico "Tão novo". Tão novo é uma merda. 

O sedentarismo é uma tendência entre os Universitários. Meus amigos de sala ainda insistem em marcar uma pelada, mas poucos comparecem. Atrasam. Depois, na hora da resenha de mesa de bar, aparecem uns 15 comentaristas. doidos por cerveja e uma boa conversa. Mas correr, ninguém quer. Eu tou mudando essa concepção. Já comecei pela bicicleta, curtindo o mundo às pedaladas. O próximo desafio será um Pilates. 

Pode parecer estranho, mas eu sou mais lerdo, mais intimista. Vou pelas beiradas, como um passeio de bicicleta nas ruas sem ciclovias do Recife, driblando o sedentarismo inconveniente, mal-educado, veloz,  que tenta parar nosso trajeto rumo á saúde. 







segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Nem toda mentira é absoluta. É só um tempero.

Foi há duas semanas, no campus da UFPE, na minha pequena e agradável maratona rumo ao Portal, cortando os 400m entre o Centro de Filosofia e Ciências Humanas e o Centro de Ciências da Saúde. Ia prosear um pouco sobre História, o mundo, contar, olhar a esperança de perto nos meus amigos. 

No meio do caminho, algumas "salvadoras da pátria" quando a fome acomete os estudantes. Aquelas barraquinhas improvisadas na mala de um Fiorino 98, com aquele velho pastel frio, fantasiado de recheio; aquele cachorro quente sem graça, mas que, na hora que a barriga passa a fazer barulho, é o que salva. 

A dona de uma dessas barracas-salva-vidas me provou que Fernando Pessoa renasce na língua portuguesa onde a imaginação está viva. Dona "dona" estava fazendo o que há de melhor nesse mundo: conversando. Mas não era qualquer conversa: era conversando sobre os outros . E, o que é melhor ainda, não era qualquer outro: era um outro íntimo, chegado, que merecia uns puxões de orelha. Conversava empolgada com um rapaz, que aparentava também ter um grau de intimidade relevante. 

"Aquele bicho é mentiroso demais, rapaz", confessou, sem elegância no tom da voz, o amigo da história. Dona "dona", mesmo contrariada, concordou, deu o braço a torcer e ampliou o assunto: "É mermo, visse? Parece que ele dorme sonhando com a mentira pra contar no outro dia". 

Essa minha tendência de ouvir conversa alheia ainda vai me custar caro, mas não resisti a essa solene advertência, a esse incômodo amigo, em busca de causos sinceros na hora de uma cerveja, durante o dominó. É quando a amiga exige mais veracidade nas mentiras que o amigo inventa pra passa\r o tempo. Isso é muito profundo. 

Toda mentira, mesmo sendo toda, não pode ser absoluta. Tem que ter, no mínimo, uma ponta de verdade, um fragmento de inspiração. Depois de fundamentar, siga com fé nas divagações. Mas, na hora que ouvi  o comentário de Dona "dona", fiquei preocupado com a frequência dos leitores por aqui caso eles descubram que, entre um texto e outro, alguma coisa aqui verbalizada nasce de um sonho, de uma pequena imaginação. 

Mesmo incomodado com isso, fui pra aula no Portal, falei sobre o pensamento Ocidental, sobre esses homens pendurados no tempo, e não larguei aquela sensação estranha, a pedrinha no sapato do pensamento. Em casa, na leseira do andar antes do sono, constatei que não, não é ruim mentir num texto. Aliás. não há mentiras. São histórias que brotam de alguma experiência que eu não tenho controle. Que acontece, mas não sinto fisicamente, que tá no mundo que, de olhos abertos, censuro, renego, podo com os mais afiados valores morais que a palavra mentira ousa me coibir. 

Por isso, amigos, continuem lendo e vejam, como num trailler, que cada texto é um sonho e que não há uma mentira absoluta. É apenas um tempero. 

terça-feira, 31 de julho de 2012

Cafezinho avec elegance.

Como já confessei por aqui, sou um amante do café. De passagem rápida pelo meu atlas virtual, mais conhecido como Google, vi que esse grão  nasceu pelas beiras da Etiópia, ficou famoso com os árabes, tomou conta como charme da Europa e foi introduzido, de forma avassaladora, na estruturas econômicas do   Brasil em fins do século XVIII. Entrou pelas fronteiras com as colônias francesas no Norte com o nosso país. No século XIX, já era produto central das rodas de negócios do Brasil Império, sacudindo o interior do Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo alguns entendidos dos assuntos, o café fez do Brasil um grande negociador de produtos primários no mercado externo. Mas nada disso substitui esse poder agregador do café.

Um dos produtos mais consumidos no Brasil, o café tem essa tendência de unificar, de coagular gente em torno de uma conversa. Nada de estimulante. Se você beber um cafezinho sozinho, vai perceber que o sono vai tratá-lo com indiferença e irá domar suas ansiedades de estender leituras pela madrugada. Mas quando ingerido em companhia, atiça bons papos,  os assuntos decolam e as amizades se consolidam. 

As repartições públicas, espaços de sutis falsidades e uma chatice incontrolável, são obcecadas pelo cafezinho, É a hora do despertar do sono, da melhorar um assunto que não anda, aquela negociação travada, a pausa fundamental nos ânimos acirrados. Serve, também, para um lanche improvisado, durante um intervalo nas leituras de uma tarde de terça-feira. 

Ontem, durante uma reunião na Universidade, mesmo nesse vazio oriundo da greve, tive uma experiência orgulhosa por causa do café. A senhora que nos serve nas ajudas básicas - inclusive servir o café - me pegou comentando que não havia tomado o café da manhã e que o velho cafezinho cairia bem àquela hora. Como num estalo, ela saltou os olhos e disse: "oxe, aqui tem. Quer não? Vou fazer agora!" Como não sou de negar gentileza, disfarcei uma aceitação perguntando se não ia incomodar. E ela rebateu: que nada. Vou fazer agora. 

A reunião começou às 9h em ponto. Pauta na mesa, apresentações dos integrantes realizadas, temas propostos e debates iniciados, em menos de 20 minutos, quando o caldo engrossava na mesa, aparece "senhora", dirigindo uma bandeja linda, com café e água. Veio ela, atravessando a sala com um sonoro "Com lincençaaaa" e um largo sorriso no rosto. Desconfio que, no íntimo, ela sabia o bem que fazia, a pequena contribuição humanitária. Não que houvesse brigas e arengas daquelas típicas de reunião. Não. Mas o cansaço de uma reunião logo cedo, em plena segunda, e ela veio ali, confortar com um café, nos distrair de leve.

De início, fiquei donzelando, apenas observando a bandeja, arrodeando o café como um cachorro quando tá a fim de fazer coco. Mas depois perdi essa etiqueta, puxei o açúcar e fui degustar o danado. Depois, tudo caminhou, os assuntos decolaram, perderam o freio, a inteligência repousou nas ideias e as decisões foram tomadas bem. 

Fiquei imaginando que outras senhoras, principalmente aquelas que devem servir na reunião do Conselho de Paz da ONU, não trabalham com um sorriso, não embaraçam embaixadores com um "Com Licençaaaa". Também desconfio que esses cafezinhos com elegância exagerada morgam ainda mais a situação. Percebam que mesmo depois dessas reuniões a violência continua intacta, inviolável. Essas decisões devem ser tomadas como um café frio

Delicadeza e cafezinhos nos servem bem, aumentam os ânimos e engordam, engordam o bem-viver. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O conforto da lembrança.

Depois que eu entrei na Universidade passei a ouvir muita gente comentar o que leu na juventude. Nos eventos acadêmicos, esses congressos da vida, o autor, geralmente para consolidar sua teoria, bota uma banca maior, ressalva, de forma muito nobre, suas primeiras leituras, sua alfabetização ideológica, aqueles poetas, filósofos, historiadores, romancistas que debulharam seu juízo aos poucos. Meu amigo João Pimenta, certa vez, entre uma cerveja e outra, se lembrava de Flaubert, Victor Hugo, que invadiram lentamente a vida dele aos 16 anos. Meu professor na Universidade, Antonio Paulo, também levitava nas lembranças de Calvino, Borges, Octávio Paz. Primeiras linhas, origens literárias, as portas do mundo sendo abertas. 

Como ainda estou na juventude, e já percebo esses cacoetes das idades avançadas, vou observando o que anda abrindo meu mundo, o que anda despertando meus olhos para o invisível. Além de Saramago, García Marques, Chico Buarque e  um pouco de Nietzsche, minha leitura fundamental hoje em dia é Samarone Lima, um simples jornalista e escritor cearense, mas que mora aqui, no nosso Recife. Samarone é tricolor, o que já aumenta minha simpatia.Escreveu cuidadosamente sobre a resistência aos regimes militares no Cone Sul, escreveu sobre Cuba e a respeito do cotidiano, da gente do Recife e do mundo. 

Um dia,  direi: quem eu li na juventude foi Samarone Lima. Justamente este poeta foi quem me deu o mote do texto de hoje. Em uma de suas publicações no Estuário, um blog que ele alimenta com lindos e suaves textos, achei uma frase brilhante perdida entra tantas outras. Não era do Samarone, mas me atiçou para a escrita de hoje. Citava o poeta uma amiga sua que, em algum momento, soltou a pérola: "memória é reconhecimento". 

Adotei-a como minha ideia de cabeceira, aquela que sempre antes de dormir consulto para a revisão de minha humanidade interna, para aperfeiçoar minha existência, uns cuidados políticos com a ética. Tratar de memória me é muito caro, até pelo curso que eu faço - História. É um dos exercícios mais profundos, reflexões das mais tensas debater o que seria a memória. Mas. hoje, tratá-la como reconhecimento é muito leve, simples, mas ao mesmo tempo ousado, completo, envolvente. Reconhecer alguém surge de um simples lembrar, um afago fraterno, um flerte da saudade com o carinho. 

Toda lembrança, ainda que ruim, tem seu conforto, a sensação de ter domínio sobre o espaço, de compreender onde pisa, a tranquilidade de "estar em casa". Lembrar traz reconhecimento. Por isso que, sempre que posso, quando lembro dos amigos, tento deixar isso claro, da forma mais prática possível. Sem arrodeios: uma mensagem no celular, um livro com uma dedicatória carinhosa, uma ligação em hora errada, um convite apelativo e carente para uma cerveja no meio da semana. Faço isso, porque simplesmente eu lembro, e se eu lembro é porque tenho cá comigo na memória um profundo reconhecimento, uma gratidão.

E o mais interessante, para encerrar esse disperso texto: toda segunda-feira tem uma ponta de saudade, principalmente daquilo que não existe.  


domingo, 29 de julho de 2012

Uma ode às rasteirinhas.

Ah, o domingo. Esse dia universal do descanso, da calma, da paciência. Dia de acordar um pouco mais tarde, mas também de acordar novamente cedo só para bater uma bola com os amigos, dar um banho divertido no cachorro. Ou simplesmente acordar cedo para ficar sabático na aurora. Levantar-se, olhar o mundo, coçar o cocuruto do papagaio, passear pertinho das plantas, conversar com o vizinho que acordou cedo pra fazer a mesma coisa. Acordar e comprar um pão quentinho, ler as matérias deliciosas do jornal de domingo, aquela que fala de história, de moda, de música, que fala dos assuntos do domingo. O domingo, esse dia da leveza. 

A leveza do domingo é que faz o pensamento correr solto. A segunda-feira só é ruim porque há uma ressaca dos pensamentos soltos do domingo.  Domingo, essa maior inspiração para o poeta. E foi um desses pensamentos soltos do domingo que me assaltou na crônica de hoje. 

Há quem comece o domingo pelo avesso. É aquela ou aquele que chegou embriagado de alguma formatura do sábado anterior e, por descuido, perdeu a sensação matinal do despertar do domingo. E hoje uma linda dama, com um longo vestido, atravessou minha visão embaralhando meu lento raciocínio de domingo. 

Ainda estava cheirosa, com o perfume despertando as rosas. Descabelada, como que amante do vento. Sorridente, como que generosa aos sórdidos rapazes. Mesmo bêbada, acertava os passos, equilibrava-se num salto 07 cm, uma ferramenta da estética feminna que a desmonsta de qualquer forma. 

Como todo domingueiro que sou, não gosto dessas imponências. Desses diminutos arroubos, que passam ao largo dos olhares masculinos também embevecidos com essa arrogância que se reveste de luxo. Não gosto dos saltos. Fico preocupado, um medo me toma quando vejo uma mulher passar de salto alto, principalmente os finos. Além da deselegância, há um clima de adrenalina, um desafio íntimo entre todas elas. 

Não, não gosto dos saltos. Prefiro as rasteirinhas. A rasteirinha é que nem o domingo: é leve, feito para um samba, para uma reunião de negócios, feito para o dia. para um caminhar. Mulher com sandálias rasteiras, assim como o domingo, é uma inspiração para o poeta, é uma sedução. As rasteirinhas preservam a liberdade feminina, aguçam aquilo que nós, homens, amamos nas mulheres: suas habilidades de gestos. Cuida da coluna, a mulher anda solta e leve, como o domingo. 

Ah, esse domingo, tão rasteirinho, tão feminino. Ah, o domingo....


sábado, 28 de julho de 2012

Bilhete guardanapo.

Agradeço sempre a quem devo e posso agradecer o brilhante jornal que me emprega; que oferece suas páginas para depositar minhas letras. Recebo um bom salário e, como não sou de muitos consumos, economizo o bastante para viajar. 

Tinha o sonho de não só conhecer outros lugares, mas como cobrir, livremente, a vida que há entre os mundos, seu cotidiano, seu despertar, seu povo com suas manias diárias. Também queria narrar a vida que deve existir entre as guerras. Não, calma. Não sou o típico jornalista bélico que não se contém quando ouve estourar um tiro. Gosto de sentir, como já disse, a vida que há entre os tiros. Ano passado, pude fazer isso. 

Foi numa sexta-feira, dia o4 de novembro de 2010. Recebi uma carta do diretor de redação do meu jornal me perguntando o que eu achava do mundo árabe. Falei que achava fantástico, ainda encoberto por uma nuvem densa de preconceitos, limitações, omissões e até falta de comunicação. Falei que, apesar de curioso, não me sentia apto para narrar um mundo que não me havia aparecido. 

Não adiantou minha modéstia. O diretor escreveu aquela carta muito mais por protocolo, porque a decisão já estava tomada: em breve, eu seria o segundo repórter, na história do jornal, a escrever de terras árabes para o Brasil. A intenção do diretor era, simplesmente,que eu exercitasse meu senso de observação e contasse as histórias que brotassem todos os dias. Arrumei as malas numa ansiedade. Já de casa, passando pelos aeroportos, o hotel, o táxi, cada espaço que eu passava tornava-se uma cenário em potencial para minha primeira reportagem, Faltava-me apenas o personagem. 

Foi aí que encontrei o bilhete escrito no guardanapo. Ele foi meu primeiro e meu segundo personagem nas duas primeiras matérias que consegui emplacar no Jornal. Confesso que minha ansiedade me fez atropelar os juízos, incomodei muita gente e, com meu complexo perfeccionismo, não me satisfazia com nada que escrevia. Passei noites em claro, me tornei um fumante compulsivo, aumentei dois graus nos olhos por causa das noites mal dormidas e permanente atenção voltada para o computador, perdi oportunidades de novos amigos. Foi uma dureza. 

Até que, numa quinta-feira, num fim de tarde na Síria, enquanto eu estava na fila do supermercado, uma reporter atônita, muito nervosa informava aos seus telespectadores sobre um bombardeio no interior do país. Instantaneamente, toda "a feira" silenciou. Homens, inconsoláveis, não tinham forças para segurar o maxilar; mulheres, nervosas,  choravam discretamente; crianças, desentendidas, sacudiam as mãos dos pais perguntando o por quê de tanto de fogo na TV. O medo se entranhou no mercado e o povo não se movia. A Guerra chegou outra vez.

Minha primeira reação aquilo tudo foi medrosa, obviamente. Mesmo sendo um leitor assíduo, estudioso da História, tão íntimo da Geografia da Guerra, era a primeira vez que a ameaça estava ali tão perto. Em seguida, achei que todos aqueles consumidores eram meus personagens e o anúncio da guerra, meu primeiro enredo. Mas eis que apareceu o bilhete guardanapo e alterou um pouco minha matéria. 

Ainda sem entender bem o que era aquela situação de gente morrendo a poucos metros, caminhei até uma lanchonete, tomei uma água, depois pedi um café e comecei a fazer minhas anotações. Minha primeira matéria seria uma narração de todas aquelas emoções; depois preencheria com as estatísticas que assombram os leitores da guerra: aqueles números que crescem assustadoramente, que comparam mortes com esperança, que insinuam política de paz...números, gráficos, a economia pragmática no furor de sua função. 

No meio disso, um rapaz na minha frente saiu, depois de uma longa estada na lanchonete, Saiu meio apressado, confuso, distráido com alguma tristeza íntima. Sem tempo para chamá-lo de volta, vi que ele deixou ficar na mesa um pequeno guardanapo que, de longe, percebi que tinha sido anotado. Não resisti e fui até lá para ler. 

Minha mãe, 
Espero que o correio tenha vida pra te levar este bilhete. Não tenho tido muito tempo para escrever cartas, porque são longas, Me sobram apenas estas curtas mensagens. A faculdade está parada, mas ainda continuo sonhando em ser professor de literatura. Soube ontem pela TV que bombardearam nossa cidade vizinha. Calma, mãe. Estou chegando e vou retirá-la daí, em paz, em vida, suave como a senhora sempre foi comigo, desde pequeno. Diga ao meu irmão mais novo que não tenho medo, que seja forte. Me responda neste endereço. Caso precise de dinheiro, me escreva da mesma forma. Arrumarei um jeito de bancar-lhe um socorro. O papel está no fim. Espero reencontrá-la em breve. Te amo. 

Assim que terminei de ler estas palavras, suei frio. Imaginei o que se passava na cabeça daquele rapaz, fiquei tentando sentir a dor dele, a saudade dele, a agonia de rever a mãe, voltar ao ninho dos irmãos. De viver em paz. Imaginei que ele quisesse tomar uma sopa mais quente, deitar numa cama macia, ler um bom livro de sua literatura preferida, ouvir uma música, conversar leseiras com vizinhos, jogar bola com os amigos, beijar a mãe com a certeza de que voltará a beijá-la. Fiquei a imaginar que, infelizmente, por descuido, algum soldado poderia assassinar aquele bilhete, no meio do caminho, e deixar a saudade desinformada dos dois.
No quarto do hotel, pensando tudo isso, percebi que era essa minha missão naquele lugar tão sem cor, tão sem vida. A minha missão era de paz durante aquela guerra: era contar a vida, narrar o brilho da vida entre os escombros, os estilhaços da sanidade humana. Era narrar que há beleza além da morte. Perceber a fulgás esperança na terra de quem tem medo constantamente.




quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Fevereiro por trás de Agosto.

O problema quando chega agosto é a saudade que dá de fevereiro. A saudade daquele agarrado, da tinta no corpo, do porre misturado de cerveja com cana, de mijar nas paredes da cidade sem constrangimento. 

O problema é que em agosto a consciência se revolta e procura ensaiar, a qualquer sexta-feira mundana do meio do mês, um fevereiro qualquer, meia boca, um projeto de segundo mês do ano. A gente fuça a estante, procura um disco de Capiba, bota no MP3 e fica se contendo dentro do ônibus, frevando apenas as pontinhas dos dedos enquanto viaja uniformizado para o estágio. 

O problema de agosto é que toda sua semana ventilada demanda um calor de fevereiro, exala uma ânsia por beber com os amigos, de sentar numa mesa do bar e, naquela muvuca ébria, onde os amigos se confundem no amor, jurar que estar num Ceroula, num Eu acho é pouco, um Amantes de glória. 

O problema de agosto é que você passa o mês com o seu chefe comentando em casa que você anda muito distraído, simplesmente porque você fica à toa, ali pelas 14h, imaginando onde seria o bloco do dia, logo mais à noite. 

O problema de agosto é que, vez ou outra, você se toma como altruísta e passa a imaginar a dor ou a solidão de quem passará o próximo fevereiro longe do Recife por causa de um trabalho, congresso, por causa de um abestalhado pacote turístico ao Rio de Janeiro só porque sua cunhada foi pra lá em Setembro e adorou. 

O problema de agosto é que você resolve namorar, se entranha com alguém e descobre que, em fevereiro,serão 07 meses e aquela sensação de comemorar uma data importante justamente na época da euforia.

O problema de agosto é que, enquanto o autor deste blog tece estas leseiras, seus amigos estão por aí, em sala de aula, educando a mente dos futuros foliões; estão numa enfermaria, cuidando dos corações ansiosos por fevereiro; estão fardados da força militar, garantindo a paz e a sobrevivência do povo para a folia do ano que vem; estão garantindo a internet, para que a galera compartilhe fotos e sorria discretamente na frente do computador com uma foto nostálgica; estão por aí, ocupando-se, enquanto este aqui, por trás desta máquina, lamenta fevereiro estar tão longe. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A História de olhos fechados.

Pequeno poema feito no despertar da tarde.



Certa feita, um professor pôs-se
A explicar, com todo cuidado,
Ao menino as Histórias do lugar.
Cenas de heroísmo, ideias a mais.
Homens de armas, que matam.
Homens de vida, que vivem.
Lembranças nas tranças embotadas
O menino quase não respirava
No acelerar dos contos.
Astúcias da mente que sente
A dor do tempo que passava.
Via as cores, as dores, odores
Mulheres que cuidavam dos filhos
Homens laboriosos a procura do
Descanso.
Daí o menino parou e inquietou-se:
 - como sabes, professor?
- Ora, respondeu o professor,
Estão nos livros, na atmosfera do tempo.
Pôs-se ereto, cada vez mais sério,
com a voz a empostar, contando,
histrionicamente, a história do lugar.
De repente, como que um aborto,
Como uma pausa abrupta, voltou
A perguntar ao menino:
 - Por que fechas teus olhos?
Respondeu o menino, diante de
tanta história: - pra poder, meu professor.
Imaginar. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Aos amigos.


Desde pequeno gosto de ter ao meu lado um pariceiro. É aquele sustenido, cúmplice, insistentemente presente e mais amigo dos seus pais do que seu. É aquele que, de repente, numa tarde cheia de leseira, meio nublada  invade sua casa, atiça os ânimos, reclama da falta de refrigerante ou cerveja na geladeira e ainda tricota fofocas com o povo de sua casa sem se abalar com nada: etiqueta, gesto, palavra. Sente-se numa extensão da casa dele.

Amizade foi uma coisa que cresci valorizando. Ouvia meu pai, durante seus conselhos, me informar que amigo de verdade são aqueles que a gente conta nos dedos. Confesso que, na hora em que papai falava, desejei ter mais amigos do que dedos, que fossem honestamente incontáveis. Mas a vida me ensinou a me contentar com os cinco dedos e razoáveis amigos inestimáveis, valiosos, orgulhosos que tenho junto comigo.
Além de tantas paixões que carrego, como escrever histórias, jogar futebol, tocar músicas bonitas ao violão e amar uma mulher linda, eu tenho cá comigo uma tendência  realmente íntima de garimpar amigos. Não consigo olhar o ser humano com o desprezo do coleguismo. Já me aproximo com as segundas intenções da amizade, que deveriam ser sempre as primeiras no relacionamento humano, seja ele uma pinga em Salgueiro ou um cafezinho durante reunião da ONU. Garimpo amizade, gosto de ir no cuvico dos sentimentos humanos. Chamar alguém de amigo é muito gostoso.

Aprendi também durante toda essa garimpagem que infelizmente pouco ouro serve depois da extração. Aqui e acolá aparece um bendito ou uma bendita que teima em querer ser seu ex-amigo. Esse cargo eu luto para nunca ocupar na vida dos meus amigos e torço profundamente para que eles nunca se sintam assim, como uma ex no meu caminho. Adormeça, peça um tempo, reflita em outro espaço, fique em silencio, mas não suma. Fique perto, sorria, chore, mas não despenque da minha vida como se ela fosse um penhasco, uma descida sem volta. Digo isso porque já experimentei o sabor do perdão dos dois lados e que uma das coisas mais cativantes dentro das amizades é o poder da diferença se submeter ao amor.

E mais gostoso ainda é o sabor de amizade recente, daquela que você observa, convive e quando chega em casa, depois de uma farra, logo após o banho, na hora que veste a samba-canção e puxa o lençol pra deitar, você discursa em voz volta: “que cara da porra” “que mulé do veneno”. E dorme com aquele orgulho, com a alma lavada de ter ao seu lado, jogando no seu mesmo time, alguém brilhante na humanidade.

Acho também que amizade, quando está se construindo, não se permite muita intimidade. Tem seus protocolos de validade. Mas o arremate final da confiança é aquela visita a casa dos pais de um amigo distante. É receber a figura dentro de sua casa, mostrar seus espaços, seus livros, mostrar suas músicas, preparar pra ele ou ela seu café, mostrar que a descarga tem defeito, que o único espelho de corpo todo fica no quarto, que o controle só funciona se mexer na pilha, que os copos ficam do lado da geladeira, que você aconchega-se ao lado dele no tapete, pertinho dos cds, para facilitar a troca dos discos no momento em que se ouve uma canção nostálgica dos dois, que sua casa não tem quarto de hóspede e o que sobra é um colchão fininho, e ele dorme como se fosse uma suíte presidencial, que a sua mãe prepara um banquete mais pensando nele do que em você, que sua mãe o intima a ajudar na arrumação da casa e que seu cachorro já balança incontrolavelmente o rabo pra ele. São coisas que só amigo vive e proporciona.

Isso tudo me emociona. Essas pequenas coisas especificas de um cargo só na vida do homem e da mulher: ser amigo. São pequenos rituais com seus singelos gestos que melhoram o humor, o “estar na vida” nesse mundo tão trôpego, frágil, dinamitado em suas relações. São pequenas contribuições que um ser humano oferece ao outro: sua preocupação, seu sentimento. É por isso que eu digo sempre que vivo pela amizade, pela sua sustentação, pela sua fidelidade.
Aos amigos, de sempre.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quem diria...

Quando sua própria vida resolve expor esse leve comentário, repense sua vida com sua vida. Aconteceu comigo esses dias, quando mais uma vez rompia uma esquina na minha vida. E lá estava a santa, paradinha, de vestido, sutiã da moda, sandália rasteira - do tipo que eu gosto - e, sorrindo, disse: "Quem diria".

Parece louco, mas é isso mesmo. De garra com a consciência, a vida zomba de suas escolhas. Outro dia, resolvi ser poeta. Troquei minhas roupas, pus um óculos novo, tracei biografias de badalados e bons poetas de outros tempos, montei um blog e passei a escrever poesia. Mas esqueci de uma coisa: de ser poeta, sentir poeta.

Caminhava crente de que era um poeta. Carregava um bloquinho comigo, sempre tinha um bom verbo a recitar, lembrava de cor versos de Vinícius, Leminski, Pessoa, um pouquinho de Shakespeare porque muito soa piegas, tilintava risonho trechos de bons cronistas para me aparentar mais aberto, despojado das métricas e atento ao mundo real da cidade. Mas esqueci de me registrar como poeta, de ser poeta, de escrever poeta.

Transgressão era seu primeiro nome. Andava com as putas, agarrado mesmo, ao ponto de confundir o perfume com o cheiro de sexo. Agasalhava-se com os bêbados durante a noite da chuva. Ria de si mesmo depois que fumava maconha, com os pés soltos, a mente lerda e longe e o coração acelerado com o efeito da erva. Anotava tudo que subtraía da lombra, das putas, do álcool. Sentia-se um revolucionário. Parecia um renascimento de Baudelaire dentro do Recife. Mas faltou uma coisa, como sempre faltava: o poeta, o ser poeta, gritar poeta, amar poeta.

Só fantasia não adianta, não adiantava e não adiantará. Quando escrevi esta última frase, a vida, aquela que falei desde o início, reapareceu, meio sorrateira e, como quem descobre um invento,  disse, mais uma vez,  toda histriônica: "Quem diria". Quem diria que a maquiagem ia borrar e o poeta ia se revelar um analfabeto da alma. Assim, morreram os livros, morreram as ideias, a desejada fama e seu principal personagem. Se tem algum elemento da obra desse poeta inexistente que merece algum reconhecimento, vale lembrar sua falsa ideia de ser o que não é. Quem diria...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Uma maratona de nostalgia.

Há varias maneiras de encarar um feriado como a páscoa. Aquelas retidões religiosas se dissiparam ao ruir das tradições. Caminhando pela cidade hoje, naquelas ruas cheias de histórias, percebi como lá se foi a "cara" do feriado. É o jogo da História e da vida: as permanências enviesadas, as imagens contrariadas das tradições e a transgressão cortante.

A vida é um eterno passeio em si mesmo, fazendo provações, reconhecendo limites e experimentando motivos. Na minha casa há uma tênue e lenta frequência religiosa. Meu pai é o mais assíduo aos rituais da Igreja Católica. Minha mãe executa uma leitura mais ponderada do livro sagrado. É um papo mais particular com Deus. Eu sou o meio-termo, aquela insegurança, a ardente rebeldia. Sou o corte da transgressão aqui em casa, mas também não sou adepto das arrogâncias intolerantes. O respeito é fundamental.

Assim sendo, vou aproveitar a sexta-feira de outras maneiras. Admiro aquelas pessoas que ficam mais reclusas e veneram o exemplo de Cristo na cruz - sem colocar em questão as polêmicas sobre as evidências históricas da existência de Jesus. Eu prefiro outras formas de viver o feriado. Por exemplo, amanhã na Tv a cabo vai passar um programa sobre Chico Buarque, meu maior ídolo na América Latina. Vou assistir. E como eu sei que vai rolar aquela minha música preferida, já coloquei na geladeira a minha cerveja preferida. Vou ouvir um bom Chico, entender suas histórias, degustar uma cerveja, ficar ao redor de boas companhias e mergulhar numa nostalgia de um tempo turvo, mas extremamente interessante.

Olhando direitinho a experiência de Chico, fica aquela sensação controversa de que, em tempos de Ditadura, a memória da resistência é atraente. Há um tom de heroísmo que seduz nossas lembranças e por isso o Chico seduz, com ingressos esgotados a um valor exorbitante. São ideias que pairam em nossa atmosfera e fica difícil de explicar. A mesma coisa são os feriados: todos curtem, mas ninguém explica. Para que? Deixa assim mesmo.

Se um dia for preciso falar sobre o nosso tempo, haverá uma frase inevitável para nos descrever: "Viver sem saber por quê". Apenas experimentando as maratonas de nostalgias, com passados vertiginosos nascendo em nossas histórias.

Bom feriado.

domingo, 1 de abril de 2012

A História aos meus olhos e a cidade concreta.


(Esse texto foi retirado de outro blog chamado Mauriceia Desvairada. Como não uso mais esse blog, e sim este aqui, tive copiar e colar. O resultado foi essa coisa estranha. Mas relaxem. Os próximos serão mais legíveis e sóbrios. Ele foi feito em Janeiro de 2011, logo depois da posse de Dilma Roussef. )

Desde que entrei na faculdade de História estreitei minhas conversas com Alberto Lima, um jornalista grande amigo de meu pai e que agora concede parte de seu tempo em reflexões sobre a vida via e-mail comigo. Ele é um cara muito bacana, atencioso, gosta de dar carinho, de entusiasmar o amigo, é crítico quando preciso, infelizmente torce pelo Náutico, mas, em contrapartida, é casado com Carol, uma brasiliense arretada, gente fina, mãe exemplar do João e do Pedro, que tem um faro fino pra coisas boas dessa vida.

Entre um e-mail e outro, Alberto soltou a possibilidade de uma visita a Brasília. E lá fui eu, pela primeira vez viajando num TAM que balançou mais que o balança mas não cai dos Aflitos em dia de clássico das emoções. Ao chegar ao aeroporto JK, cheirei aquele clima de Brasília pra renovar o pulmão, estiquei os braços e as pernas e fui expresso dá uma fuçada na cidade antes de encontrar com Alberto e Carol. Em segredo, queria mesmo adentrar em Brasília e ver como funcionava o centro do poder do meu país.

Acabei descobrindo outras belezas e outras faces de Brasília. A princípio, me assustei um pouco. Fui motivado pela posse e caía uma chuva desagradável. Ela poderia afogar os meus planos de ver a Dilma enrolada na faixa verde e amarela. O taxista que me encaminhou nas longas avenidas do DF apontou o seu termômetro social para a posse e alfinetou: “Pelo jeito, ela não vai desfilar em carro aberto”, disse o motorista um tanto silencioso, que só respondia o necessário. E era somente o necessário que se ouvia até então. O táxi, o jornaleiro, o rapaz do hotel, meu vizinho de quarto falavam apenas o essencial.

Cheguei ao Hotel às 10h do dia 31. Me organizei e abri a varanda que dava para o Congresso Federal. Linda paisagem. Um verde liso contrastava com o concreto dos altos prédios do plano piloto. Passei rapidamente num shopping e vi o quanto rigorosos com o trânsito eles são. Os carros passavam a 100km/h e o pedestre, pacientemente, espera o sinal fechar, e sempre na faixa. Na fila do restaurante do shopping percebi que as mulheres têm o mesmo tom de voz: algo aberto, efusivo e engraçado. Mas era lindo o tom da voz.

Essa dureza Brasiliense é histórica. Em cinco décadas de existência, o DF é habitado por muita gente de fora. Não há aquele bairrismo, um apego fraterno como nós temos com o Recife. Apesar de andar bastante para tirar fotos da noite do Réveillon, meu objetivo máximo era o dia primeiro, a posse da primeira mulher presidente. No dia 31, não me prolonguei nos assuntos etílicos e me guardei para agüentar o rojão do dia seguinte. Rolou um baita festão na casa dos pais da Carol. Preferi o descanso e encontrá-los no outro dia, na posse.

O tempo me deu um drible daqueles. Me acordou com chuva e, no meio do caminho, me deu um abraço caloroso. Um sol repentino apareceu e me queimou todo enquanto registrava a diversidade de gente que chegava à Esplanada dos Ministérios, para ver Dilma empossada. Foi lindo aquele vermelhidão petista. Cada um com sua bandeira, boné, camisa, mas, sobretudo, todos carregavam uma esperança.

Já próximo do Congresso, a organização do evento promoveu um encontro de culturas, uma coisa linda. Cinco tendas representando as regiões brasileiras. Uma comunhão de expressões artísticas deslumbrante. Mais adiante um pouco, quando meu relógio marcava 14h, eu já estava sentadinho nas rampas do Congresso esperando Dilma no Rolls Royceth. O sol me torrava, mas eu desconfiava da chuva. Olhava assim para o horizonte e via aquelas nuvens pretas se aproximando. O Rádio me avisou categórico: “Dilma sai da Granja do torto e vem desfilando em carro fechado em virtude das fortes chuvas em Brasília”.Era só o que me faltava, e não faltou. Tomei um baita banho e, na descida do Congresso, não vi o xauzinho da presidenta. Não desisti.

Peguei a tangente do Congresso e caí na praça dos três poderes. A chuva deu uma trégua, mas ficou intimidando o sol. Ficou aquele mormaço tabacudo, que nem esfria e nem esquenta. Mas a cerimônia ficou mais confortável. Tinha um telão na praça. Deu pra ver e ouvir o primeiro discurso de Dilma como Presidente da República Federativa do Brasil. “Erradicar a miséria, proteger os mais frágeis e desenvolver o Brasil”. Boa essa parte, mas melhor ainda foi quando ela engasgou e chorou lembrando-se de seus companheiros que tombaram na Guerrilha porque tinham um sonho para o Brasil. Ponto para Dilma e muita emoção pra mim. Somente nessa parte ela ganhou o mandato. Teremos uma governante de sonhos, e não só de metas.

Embora técnico e demorado, Dilma fez um discurso razoável. Mais instigante ainda foram os atos em silêncio. O Alberto lembrou bem a cena mais interessante do dia, quando ela saiu do Congresso e o representante das forças armadas prestou continência à Dilminha. Me emocionei todo quando Alberto me lembrou, daquele jeito dele, cuidadoso com as palavras. Aquela cena me marcou de forma indescritível. Imaginem: é uma ex-guerrilheira, que foi estupidamente torturada pelos militares nos anos 60 e 70, reconhecida como a maior autoridade do país pelos mesmos fardados que a atormentaram no passado. A memória histórica é fenomenal. Naquele momento eu tive a sensação de que a História estava aos meus olhos e me emocionei verdadeiramente. Em poucas palavras, foi lindo.

À noitinha, mesmo cansado, fui à casa de um casal pernambucano que é super amigo do Alberto e da Carol, que são duas pessoas sensacionais. Ao chegar lá, uma conversa bem pernambucana misturada com Brasília. Pessoas legais, conversas fluentes. As histórias longas e interessantes do Alberto, a atenção, preocupação e paixão da Carol em nos inserir no contexto de Brasília, os palpites dos amigos deles sobre política, economia em dia de posse, um macarrão com carne moída que achei maravilhoso e, por fim, um sono arrebatador sobre os livros do Chico Buarque – presentes da viagem – depois de um dia histórico, em todos os momentos.

E Brasília é linda, basta conhecê-la mais pacientemente. Ela guarda com carinho seu povo, acolhe em silêncio. Na minha mente, Brasília é um lugar amigo, de paz, suave, mas que pouco se sabe Brasil afora. Foi muito bom estar lá, nesse momento tão importante para História do Brasil. Não podia ficar em silêncio diante da beleza e do carinho.

Para Alberto e Carol, João e Pedro, amigos que me acolheram carinhosamente em Brasília.


Por Afonso Bezerra