quinta-feira, 5 de abril de 2012

Uma maratona de nostalgia.

Há varias maneiras de encarar um feriado como a páscoa. Aquelas retidões religiosas se dissiparam ao ruir das tradições. Caminhando pela cidade hoje, naquelas ruas cheias de histórias, percebi como lá se foi a "cara" do feriado. É o jogo da História e da vida: as permanências enviesadas, as imagens contrariadas das tradições e a transgressão cortante.

A vida é um eterno passeio em si mesmo, fazendo provações, reconhecendo limites e experimentando motivos. Na minha casa há uma tênue e lenta frequência religiosa. Meu pai é o mais assíduo aos rituais da Igreja Católica. Minha mãe executa uma leitura mais ponderada do livro sagrado. É um papo mais particular com Deus. Eu sou o meio-termo, aquela insegurança, a ardente rebeldia. Sou o corte da transgressão aqui em casa, mas também não sou adepto das arrogâncias intolerantes. O respeito é fundamental.

Assim sendo, vou aproveitar a sexta-feira de outras maneiras. Admiro aquelas pessoas que ficam mais reclusas e veneram o exemplo de Cristo na cruz - sem colocar em questão as polêmicas sobre as evidências históricas da existência de Jesus. Eu prefiro outras formas de viver o feriado. Por exemplo, amanhã na Tv a cabo vai passar um programa sobre Chico Buarque, meu maior ídolo na América Latina. Vou assistir. E como eu sei que vai rolar aquela minha música preferida, já coloquei na geladeira a minha cerveja preferida. Vou ouvir um bom Chico, entender suas histórias, degustar uma cerveja, ficar ao redor de boas companhias e mergulhar numa nostalgia de um tempo turvo, mas extremamente interessante.

Olhando direitinho a experiência de Chico, fica aquela sensação controversa de que, em tempos de Ditadura, a memória da resistência é atraente. Há um tom de heroísmo que seduz nossas lembranças e por isso o Chico seduz, com ingressos esgotados a um valor exorbitante. São ideias que pairam em nossa atmosfera e fica difícil de explicar. A mesma coisa são os feriados: todos curtem, mas ninguém explica. Para que? Deixa assim mesmo.

Se um dia for preciso falar sobre o nosso tempo, haverá uma frase inevitável para nos descrever: "Viver sem saber por quê". Apenas experimentando as maratonas de nostalgias, com passados vertiginosos nascendo em nossas histórias.

Bom feriado.

domingo, 1 de abril de 2012

A História aos meus olhos e a cidade concreta.


(Esse texto foi retirado de outro blog chamado Mauriceia Desvairada. Como não uso mais esse blog, e sim este aqui, tive copiar e colar. O resultado foi essa coisa estranha. Mas relaxem. Os próximos serão mais legíveis e sóbrios. Ele foi feito em Janeiro de 2011, logo depois da posse de Dilma Roussef. )

Desde que entrei na faculdade de História estreitei minhas conversas com Alberto Lima, um jornalista grande amigo de meu pai e que agora concede parte de seu tempo em reflexões sobre a vida via e-mail comigo. Ele é um cara muito bacana, atencioso, gosta de dar carinho, de entusiasmar o amigo, é crítico quando preciso, infelizmente torce pelo Náutico, mas, em contrapartida, é casado com Carol, uma brasiliense arretada, gente fina, mãe exemplar do João e do Pedro, que tem um faro fino pra coisas boas dessa vida.

Entre um e-mail e outro, Alberto soltou a possibilidade de uma visita a Brasília. E lá fui eu, pela primeira vez viajando num TAM que balançou mais que o balança mas não cai dos Aflitos em dia de clássico das emoções. Ao chegar ao aeroporto JK, cheirei aquele clima de Brasília pra renovar o pulmão, estiquei os braços e as pernas e fui expresso dá uma fuçada na cidade antes de encontrar com Alberto e Carol. Em segredo, queria mesmo adentrar em Brasília e ver como funcionava o centro do poder do meu país.

Acabei descobrindo outras belezas e outras faces de Brasília. A princípio, me assustei um pouco. Fui motivado pela posse e caía uma chuva desagradável. Ela poderia afogar os meus planos de ver a Dilma enrolada na faixa verde e amarela. O taxista que me encaminhou nas longas avenidas do DF apontou o seu termômetro social para a posse e alfinetou: “Pelo jeito, ela não vai desfilar em carro aberto”, disse o motorista um tanto silencioso, que só respondia o necessário. E era somente o necessário que se ouvia até então. O táxi, o jornaleiro, o rapaz do hotel, meu vizinho de quarto falavam apenas o essencial.

Cheguei ao Hotel às 10h do dia 31. Me organizei e abri a varanda que dava para o Congresso Federal. Linda paisagem. Um verde liso contrastava com o concreto dos altos prédios do plano piloto. Passei rapidamente num shopping e vi o quanto rigorosos com o trânsito eles são. Os carros passavam a 100km/h e o pedestre, pacientemente, espera o sinal fechar, e sempre na faixa. Na fila do restaurante do shopping percebi que as mulheres têm o mesmo tom de voz: algo aberto, efusivo e engraçado. Mas era lindo o tom da voz.

Essa dureza Brasiliense é histórica. Em cinco décadas de existência, o DF é habitado por muita gente de fora. Não há aquele bairrismo, um apego fraterno como nós temos com o Recife. Apesar de andar bastante para tirar fotos da noite do Réveillon, meu objetivo máximo era o dia primeiro, a posse da primeira mulher presidente. No dia 31, não me prolonguei nos assuntos etílicos e me guardei para agüentar o rojão do dia seguinte. Rolou um baita festão na casa dos pais da Carol. Preferi o descanso e encontrá-los no outro dia, na posse.

O tempo me deu um drible daqueles. Me acordou com chuva e, no meio do caminho, me deu um abraço caloroso. Um sol repentino apareceu e me queimou todo enquanto registrava a diversidade de gente que chegava à Esplanada dos Ministérios, para ver Dilma empossada. Foi lindo aquele vermelhidão petista. Cada um com sua bandeira, boné, camisa, mas, sobretudo, todos carregavam uma esperança.

Já próximo do Congresso, a organização do evento promoveu um encontro de culturas, uma coisa linda. Cinco tendas representando as regiões brasileiras. Uma comunhão de expressões artísticas deslumbrante. Mais adiante um pouco, quando meu relógio marcava 14h, eu já estava sentadinho nas rampas do Congresso esperando Dilma no Rolls Royceth. O sol me torrava, mas eu desconfiava da chuva. Olhava assim para o horizonte e via aquelas nuvens pretas se aproximando. O Rádio me avisou categórico: “Dilma sai da Granja do torto e vem desfilando em carro fechado em virtude das fortes chuvas em Brasília”.Era só o que me faltava, e não faltou. Tomei um baita banho e, na descida do Congresso, não vi o xauzinho da presidenta. Não desisti.

Peguei a tangente do Congresso e caí na praça dos três poderes. A chuva deu uma trégua, mas ficou intimidando o sol. Ficou aquele mormaço tabacudo, que nem esfria e nem esquenta. Mas a cerimônia ficou mais confortável. Tinha um telão na praça. Deu pra ver e ouvir o primeiro discurso de Dilma como Presidente da República Federativa do Brasil. “Erradicar a miséria, proteger os mais frágeis e desenvolver o Brasil”. Boa essa parte, mas melhor ainda foi quando ela engasgou e chorou lembrando-se de seus companheiros que tombaram na Guerrilha porque tinham um sonho para o Brasil. Ponto para Dilma e muita emoção pra mim. Somente nessa parte ela ganhou o mandato. Teremos uma governante de sonhos, e não só de metas.

Embora técnico e demorado, Dilma fez um discurso razoável. Mais instigante ainda foram os atos em silêncio. O Alberto lembrou bem a cena mais interessante do dia, quando ela saiu do Congresso e o representante das forças armadas prestou continência à Dilminha. Me emocionei todo quando Alberto me lembrou, daquele jeito dele, cuidadoso com as palavras. Aquela cena me marcou de forma indescritível. Imaginem: é uma ex-guerrilheira, que foi estupidamente torturada pelos militares nos anos 60 e 70, reconhecida como a maior autoridade do país pelos mesmos fardados que a atormentaram no passado. A memória histórica é fenomenal. Naquele momento eu tive a sensação de que a História estava aos meus olhos e me emocionei verdadeiramente. Em poucas palavras, foi lindo.

À noitinha, mesmo cansado, fui à casa de um casal pernambucano que é super amigo do Alberto e da Carol, que são duas pessoas sensacionais. Ao chegar lá, uma conversa bem pernambucana misturada com Brasília. Pessoas legais, conversas fluentes. As histórias longas e interessantes do Alberto, a atenção, preocupação e paixão da Carol em nos inserir no contexto de Brasília, os palpites dos amigos deles sobre política, economia em dia de posse, um macarrão com carne moída que achei maravilhoso e, por fim, um sono arrebatador sobre os livros do Chico Buarque – presentes da viagem – depois de um dia histórico, em todos os momentos.

E Brasília é linda, basta conhecê-la mais pacientemente. Ela guarda com carinho seu povo, acolhe em silêncio. Na minha mente, Brasília é um lugar amigo, de paz, suave, mas que pouco se sabe Brasil afora. Foi muito bom estar lá, nesse momento tão importante para História do Brasil. Não podia ficar em silêncio diante da beleza e do carinho.

Para Alberto e Carol, João e Pedro, amigos que me acolheram carinhosamente em Brasília.


Por Afonso Bezerra

Quando aquela a música é foda.


A vida é feita de uma forma não muito linear. As curvas servem de alerta. É um sinal multicolorido repleto de avisos inesperados. Há alguns anos eu era um degustador perfeito de música. Confesso que havia também uma intransigência quanto à qualidade. Desaprovava qualquer manifestação brega, desses novos; funk, desses safados; e ardia em defender a clássica MPB, os nomes do rock e os velhos malandros do samba. Preservava suas falhas como se fosse a maior marca de heroísmo. Conservava como meus amigos.

Lembro, como se fosse hoje, há seis anos, naqueles idos de 2006, quando eu era oitava série e descobri o MP3. Não tinha tempo para outra coisa senão o velho fone de ouvido. Como eu não tinha um pra chamar de meu, mendigava dos amigos e, juntos, naquela efervescência de transformar o velho em novo, compartilhávamos o som. Emaranhávamos uns nos outros, no auge dos hormônios. Descobríamos frases lindas, poemas profundos e artistas dos bons.

Quando Cazuza, um típico nome da Música Brasileira que encontra abrigo fácil na rebeldia da adolescência, entrou no meu MP3, também invadiu minha vida e dos meus amigos. Era lindo como, depois do filme exibido na Globo, cantávamos suas músicas como Hino de nossa vontade, com punhos fechados, caras enrugadas e braços erguidos. O mundo muda a partir da vontade, e a música que embala esse sentimento é uma bela trilha sonora. A vida se transforma numa sétima arte.

Elis Regina foi uma invasão bárbara radical na minha vida. Meus amigos também a deixaram invadir suas almas, como se ela fosse a dona, revirando cada ferida, apertando cada fogo ardente de transformação. A cada audição de Como nossos pais, era como se fosse um velho manual de como não ser, a velha sensação de não repetir o passado e a música sempre ao nosso lado, como fiel escudeira. Rita Lee, Beatles, Mutantes, Tim Maia, Pink Floyd. Haja MP3 para tanta overdose de transgressão.

As músicas embalam rótulos, que não são descartáveis, apesar de efêmeros. O passageiro tem sua importância, tem seu significado. O mundo não é feito exclusivamente de permanências. As mudanças servem para nos mostrar o quanto foi importante aquilo que deixamos de ser para o que somos hoje, num espécie de soma. Mudam-se as roupas, mudam-se as frequências.

Foi quando entrou Nelson Cavaquinho e eu já havia deixado de lado o MP3 e o fone de ouvido. Havia uma melancolia, era um conformismo não muito conformado de si. Noel Rosa foi educado, tranquilo, reflexivo. Quase se tornou o tema na minha monografia do curso de História. Mas ponderei. Talvez as minhas cervejas com os amigos não fossem mais agradáveis depois que o samba tivesse se tornado objeto de pesquisa. Deixaria de ser Samba para ser Academia.

A maturidade não é amiga da música. O silencio é a trilha predileta de quem envelhece. Uma pena que a juventude, ainda incompleta, deixe seus pedaços nessas esquinas. O vazio da nostalgia é fruto da escolha. Há um cardápio para construir os passos do futuro. Simplesmente, espero que lá na frente, junto de tantos amigos amados, haja mais som, mais cores, mais mudanças e permanências. Haja mais vida. Que haja aquela música pra chamar de foda.

Travessias.


É indescritível a imagem: um jovem senhor de cabelos grisalhos, acomodando os seus extensos e bem vividos 80 anos, reencontra uma grande amiga de juventude, dos tempos do curso de História na Universidade Federal de Pernambuco. Estasiado, ele não consegue se referir a ela no hoje. Somente o ontem ocupa o espaço das emoções. Muitas saudades, nostalgia, amores perdidos pelo tempo. Ele busca o abraço dela como se tentasse reativar o relógio de sua vida, apontando o ponteiro para o tempo exato do recomeço. Suas linhas, suas narrativas de gesto se insinuam como autoridade em si. Dentro de gestos, apenas um consegue definir o que ele sentia por ela, naquele momento: simplesmente, ao fechar os olhos e permitir que as lágrimas dessem o tom de sua reconciliação. À sua frente, extremamente saudosa, estava a vida, fragmentada, exilada, esquecida, adormecida, vivente.
O seu 81° ano de vida, desse nobre senhor que dilata esta história, começa nesta segunda que, como todas, é uma breve travessia, e entre uma fissura e outra, há anos, há histórias e muitas, muitas vidas para se tecer.

Que nasça, novamente, um breve espaço de contos sobre a vida, o homem, o seu time preferido e a cidade que, dolorosamente, ele vive em crise, depois de intensas paixões. Assim é o roteiro da História.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Barulho de bomba. Sirene. Os corpos amontoados no chão. Do outro lado da cidade, aproxima-se um eco informando que há alguma coisa estranha. No lado oeste, homens que desfrutavam de um descanso razoável na hora do expediente, obedecem à ordem do comandante de farda. O padre interrompe sua tradicional paciência e passa a rezar desesperadamente. Silêncio. Outra bomba. A criança chora o poder inesgotável de sua ignorância. O militar grita honrando sua tarefa, assemelhando-se a um herói. Um cineasta registra tudo porque a cidade em devaneio, posta numa tela de cinema com seu nome, representa sua lucidez numa era de crises e pessoas insensatas. O jardineiro prefere adormecer sobre o jardim. Diz que protege suas flores. O sol, ainda das 15h. é fechado por um nebulosa poeira, antecipando a noite. O garoto, desentendido, abraça a bola atordoado. Outra bomba. A vó perde o prumo da agulha do crochê. Ao mesmo tempo, o médico põe a bata e confere todas agulhas do Hospital. As portas se abrem. Há pouco leito no Hospital. A placa de Emergência silenciou sua cor vermelha. Faltou energia no mundo. Outra bomba, muita próxima, um som alto, não se consegue mais entender nada...Não há palavras porque não há vida.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Para onde ela foi?

Antigamente Ele tinha medo dos sentimentos porque os que sentia eram instantâneos demais. Eles chegavam, os abraçavam com saudade e no outro dia já partia, em silêncio. Muitas vezes Ele nem via a hora da partida. Em outras, o ruído do flash da mala anunciava a despedida, e Ele não entendia a lógica da partida. Quando dava conta, a porta já estava batida e a presença mais longe do que se podia imaginar.

A partir de então resolveu deixar de lado essas bobagens de acreditar no impossível e levar a vida mais a sério. Não deu vacilo em acreditar em qualquer verbo, muito menos mal conjugado. Segredava sua vida apenas ao copo de cerveja. Refugiava-se em temas banais, generalidades, para que não dar brecha às intimidades tão forçadas, porque, quando criadas, tão imediatamente partem logo assim que chegam.

Na livraria, parou em frente à estante de Filosofia e abriu um livro do Kant. Aprofundou leitura atenta, achava que seria o livro que iria levar. Folheou umas cinco páginas e sentou-se no corredor para continuar lendo. As idéias o seduziam. De repente, levantou-se com o ar de quem aprovou o que estava em mãos. Passou um olhar na prateleira, uma ou duas capas o atraíram, mas tinha certeza daquele livro e não iria deixá-lo na mão. Ele flutuava nos vários sentidos de sua mente.

Ele sentou no café da livraria, fez seu pedido e começou a imaginar novamente a sua vida. Até que uma moça jovem, aparentando seus vinte anos, sentou-se à mesa à frente carregando vários livros. Achou que era para presente. A moça abriu de um por um e, em cada primeira página, anotava algo que Ele imaginava ser a dedicatória para alguém. Ele Começou a olhar indiscretamente, sem segredos. Ele queria que ela percebesse que estava a observando.

Em poucos segundos ela levantou um pouco a sobrancelha e jogou seus olhos na sua direção, como se percebesse ou sentisse o seu olhar lhe tocando. Ao tentar disfarçar, a convidou para sentar na sua mesa. O seu café chegou nesse instante e ofereceu a moça, que aceitou educadamente sentando à sua mesa.

Inesperadamente, sobrevoou sobre a conversa deles vários nomes estranhos que o mundo considera clássico. Minto. Ela citava mais do que Ele, que se reduzia em algumas passagens de sua vida, lembranças vagas dos tempos de Jornalista. Ela era estilista e desenhista, e o fitava como quem estivesse decalcando na página da lembrança, com o cérebro catalogando cada traço d rost dele

A recíproca era a mesma. Ele se sentia nervoso com o tanto de citação que ela fazia e a facilidade com que trafegava de ciência para ciência, da filosofia à Química. Seu peito em disparada desacreditava no que via, mas se encantava com aquela realidade tão rara e, ao mesmo tempo, inventada. Já era um sinal de que Ele se entregava a novos sentimentos, a novas invenções. Ao perceber isso, já era tarde e Ele não podia reescrever uma nova estória. Ela já assinava o bater da porta no bilhete de pagamento do cartão. O barulho das malas arranhando as rodinhas pela sala foi o “Obrigado e volte sempre” do garçom”. Ele se sentiu um inoperante. Suas forças se perderam na emoção.

Diante da persiana, com o Kant na cabeceira, acendeu seu cigarro imaginando seus passos, processando o tom da voz da moça na memória. Já era Noite e quase 24h do encontro. Para onde ela foi? Sentía-se preso ao sentir saudade daquilo que não viu, não conheceu e não aconteceu. Imaginou que ela foi para Ele como as águas que escorrem por entre as mãos: tão real e tão inacessível. Para onde ela foi? Repousa, imaginação! O que restou apenas foi o gosto do trago, tão amargo quanto sentir saudade daquilo que é invisível.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Como se fosse fevereiro.

A banda no meio do percurso atacou de “Deixa o frevo rolar, eu só quero saber...” e todos foram aos gritos, naquele empurra – empurra natural do carnaval. Eu estava fantasiado de Bobo da corte e me infiltrei na alegria do Recife para espantar o banzo do fim do casamento. Muita cerveja, muita dor de cotovelo, conversas afogadas e nada de a dor passar. Ela apenas despertava mais tarde no outro dia por causa da ressaca.

Na terça-feira de carnaval, bem dizer o último dia da folia de momo no Recife, eu acordei com uma tremenda dor de cabeça. O despertador apitava alto, minha vista embaçada se perdia sem os óculos. Quanto mais eu me esticava para desligar o som irritante, mais tensa era dor na cabeça. Consegui abrir a vista em frente ao espelho e vi que em meu rosto estava a marca de que eu havia me rendido às dores da solidão. Tomei um café forte e fui me certificar se hoje alguém iria pular carnaval na cidade.

O João estava viajando. A Neide, secretária da empresa, resolveu brincar em Olinda durante o dia e provavelmente vai chegar entregue no final da tarde. Marcelo e a esposa vão brincar, mas estão felizes com o casório, eu não iria estragar uma lua de mel tão alegre. Até porque o casamento que supera o carnaval está fadado ao “felizes para sempre”. Sorri em frente ao espelho e vi que minha sagacidade estava um pouco além do normal. Tudo que fosse em relação ao casamento, eu destilava um veneno raivoso.

O tempo passou e as orquestras, algumas pequenas, outras irritantes, já afinavam o tom na Avenida. Abri a janela da varanda que dava para o Recife Antigo e, de longe, observava o folião chegando ao Recife, se apertando na Guararapes e se entregando ao passo nas ruas antigas do Bairro do Recife. Tinha um José de bermuda que se encantava com a festa. O Mário, que é aposentado, gastando o dinheiro da aposentadoria como vingança da empresa. A Janete, a empregada doméstica de Boa Viagem, enchia a cara de cachaça como se afogasse a alienação do trabalho e a exaustão do serviço que lhe consumia. As três virgens moças estreavam a liberdade no carnaval do Recife e pulavam de mãos dadas atraindo olhares dos homens que passavam como se fossem grandes vedetes. E eu da varanda, no décimo andar, guardando a dor do fim podendo fazer um recomeço.

Vesti uma camisa, pus uma bermuda como o José, peguei um dinheiro igual ao que o Mário gastava e saí alegre como a Janete, embevecido como as três virgens moças. Parti como se aquilo fosse novidade. O vento do Recife batia no meu focinho, como se espantasse a solidão, enquanto eu atravessava a ponte Maurício de Nassau. A Mauricéia Desvairada estava sorridente com suas fantasias, as pontes vestidas de um colorido marcante e o povo coberto de euforia como um anfitrião se embeleza ao visitante. No meio da rua do Bom Jesus, a orquestra atacou de “Deixa o frevo rolar, eu só quero saber...” e eu enlouqueci. Pulei, dancei e deixei de lado os dedinhos e abri a dobradiça no meio multidão como se a rua fosse o meu palco. E fui junto com o povo, marcando a cadência do frevo no arrastado do chinelo. Era Vassourinhas, Hino do Elefante, Madeira do Rosarinho. Cantava todos os frevos como se fosse a música dos meus sonhos, da minha vida.

As ruas iam passando, o bloco me arrastava e eu ia me encantando. Não tinha medo de me perder porque sou como o poeta já dizia: "Recife - cidade que reconheço somente passando as mãos pelas paredes." Assim, fui tateando os bares, as ruas, o povo.

Na minha frente, uma moça fotografava o bloco como se fosse o último e como a terça fosse acabar ali, naquele instante. Mas sua alegria era tanta que contagiou a todos. Cada clique era uma festa. Depois ela parou, guardou a máquina e ficou na minha frente pulando freneticamente ao som do frevo. De repente, a orquestra atacou de “Olha que eu conheço essa cara...” e todos se apertaram na curva com a Praça do Arsenal.

Ela ficou bem na minha frente. Vez ou outra me olhava, me sorria e se desculpava dos pisões. Eu nem desculpava, agradecia. Diante daquela beleza me deitaria como se fosse um pano de chão ou uma asfaltada avenida, pra que ela pudesse frevar. O cheiro do cabelo dela me encantava e assim eu ia até as estrelas de felicidade. O carnaval era radiante.

Quando estávamos fazendo a segunda volta na Praça do Arsenal, comecei a conversar com ela me utilizando da letra da canção. “Vem comigo e toma a chave do meu coração, porque eu já entrei no clima. Deixa eu sair no teu bloco, me abraça e me beija, me faça feliz”. Nesse meio termo de cantadas e frases plagiadas, a orquestra aumentou o som falando do sol, da praça, do amor, da saudade e eu não resisti e dei-lhe um forte abraço. Ela segurou na minha mão, me sorriu e continuou cantando frevo. Apressei meu passo para seguir junto ao seu corpo como se fosse namorado. No final do bloco, a beijei como se fosse amante, com uma alegria como se fosse fevereiro.

Sentamos no marco zero e o vento balançava seus cabelos. Fazia um frio como se fosse agosto. Continuei beijando-a intensamente, esquentando seu corpo no meu. O dia foi nascendo e o sol nos clareando como se fossemos artistas e o marco zero um grande palco. Com o dia já de pé, fomos dormir como se fossemos casados e acordamos como se tivesse esquecido que a dor da separação havia doído. O frevo nos trouxe para o grande amor.